Em Foi Apenas um Acidente, o diretor iraniano Jafar Panahi reafirma seu cinema autoral ao mesmo tempo que inova ao flertar com o filme de gênero. Cenas de ação e de tensão convivem com o drama da opressão política que insiste em tentar moldar os cidadãos do país. O experimento agradou ao júri do Festival de Cannes, que lhe premiou com a Palma de Ouro.
A cena inicial resgata o formato de Táxi Teerã (2015), de Panahi. Um longo plano sem cortes, filmado quase que integralmente dentro de um veículo, mostra uma família (um casal e uma filha) voltando para casa numa estrada à noite. O carro para de funcionar e o pai pede ajuda numa casa perto dali. Vahid, o morador, ao ouvir os passos singulares desse homem manco e a sua voz reconhece que ele é Eghbal, o agente que o oprimia na época em que esteve na prisão. Pensando em se vingar, Vahid o persegue e, no dia seguinte, o captura.
Ação e humanismo
Prestes a executar o seu refém, este afirma veemente que se trata de um engano, que ele não é Eghbal. Receoso de cometer um erro, Vahid reúne três companheiros de cela (duas mulheres e um homem) para ter certeza se o homem é quem ele desconfia ser. Mas, como todos estavam vendados na presença dele na prisão, fica complicado eles opinarem com absoluta convicção. Como em muitos filmes de Jafar Panahi, inclusive sua estreia em longa O Balão Branco (1995). Os personagens passam quase todo o filme tentando realizar uma tarefa. Neste caso, assassinar, ou não, o possível algoz do cárcere.
Além de o enredo prever muita movimentação desse grupo, que começa com Vahid e depois se amplia com o recrutamento dos seus cúmplices, paira uma violência incomum no cinema de Panahi. Vahid, por exemplo, tenta enterrar Eghbal vivo, e depois o agride com uma pá. Adicionalmente, o suspense cresce cem a tensão presente na caracterização de alguns desses personagens secundários, em especial o grandalhão que quer loucamente matar de imediato o Eghbal que eles capturaram.
Panahi mostra o seu lado humanista quando o protagonista abdica da vingança porque não quer se igualar aos seus opositores. Porém, a última cena de Foi Apenas um Acidente revela que as duras lembranças da prisão o perseguirão para sempre.
Neste filme, Jafar Panahi se abre para um público maior, mas sem trair sua essência.
Ficha técnica:
Foi Apenas um Acidente | Yek Tasadef Sadeh | 2025 | 102 min. | Irã, França, Luxemburgo | Direção: Jafar Panahi | Roteiro: Jafar Panahi | Elenco: Vahid Mobasseri, Maryam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, Mohamad Ali Elyasmehr, Georges Hashemzadeh, Delmaz Najafi.
Distribuição: MUBI e Imovision.
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