Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira se passa em uma cidadezinha do interior. Uma narração em off que se aproxima da leitura de um livro apresenta a situação. Os poucos moradores que restam bebem tanto que existe um serviço público para recolher aqueles que amanhecem inconscientes nas ruas por causa da ingestão exagerada de álcool.
A eleição para prefeito está próxima, e o atual mandatário Marcão (vivido por Otávio Muller) tem certeza de que será reeleito com sua campanha que defende devastar as matas para usá-las em atividades lucrativas do agronegócio. Sua influente esposa Rosália (papel de Natália Lage) é a sua vice, mas esse apoio começa a balançar quando ela descobre que o marido a trai com uma fazendeira rica e viúva.
O opositor de Marcão não tem nenhuma chance de vencer a eleição. Também, pudera: o padre Pejerô (Wilson Rabelo) tem como argumento de campanha a luta contra poderes do mal que querem dominar a cidade. A população não o leva a sério, até porque ele também bebe demais. Porém, a ameaça existe de verdade, e um vampiro mata o padre. Sua sobrinha Bartira (Gabriela Dias), então, passa a investigar o que aconteceu, ajudando (ou atrapalhando) um vampirólogo que chega à cidade para evitar o ataque sobrenatural.
Enquanto isso, para se vingar do marido infiel, Rosália substitui Pejerô como candidato da oposição. Ao se envolver com Kesabel (Eriberto Leão), um dos líderes dos vampiros, sua candidatura ganha recursos e ela passa a ter chances de vencer a eleição. Porém, tudo isso faz parte dos planos das forças do mal.
Direção, elenco e roteiro
Como em seu filme anterior Maior que o Mundo (2020), o diretor Beto Marquez constrói personagens cheios de vida, que conquistam o espectador nos primeiros segundos em que aparecem na tela. Otávio Muller e Natália Lage entregam atuações estupendas dando vida a uma sátira política engraçadíssima que remete ao saudoso O Bem Amado, de Dias Gomes, em suas versões novela e série para a televisão. Todos os demais atores também estão ótimos, apenas Gabriela Dias está um pouco abaixo pois não encontra o tom certo de sua interpretação.
A fotografia do filme se destaca. Usa luzes coloridas fortes aproveitando a predominância das cenas noturnas das locações no distrito de Ribeiro dos Santos, em Olímpia (SP). Essa escolha acentua a transição para o preto e branco que marca as aparições dos vampiros, detalhe importante para o plot twist da cena final. Não há pretensão de se fazer um filme de terror assustador. Apesar disso, existem alguns detalhes sombrios e um pequeno toque de gore nas cenas de ação. Estas, como em Love Kills (2025), outro filme brasileiro sobre vampiros, desapontam. Nos confrontos, faltam coreografias de lutas e sobram vampiros rosnando. Por outro lado, há força na sensualidade atrelada a esses seres sobrenaturais, em especial nas cenas envolvendo Natália Lage e Eriberto Leão.
O encanto de Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira se concentra na sátira política. Por isso, é extremamente divertido e sensual até a parte final, quando a narrativa precisa se preocupar com a trama do plano maligno dos vampiros. Trama que parece desnecessária, o roteiro poderia se limitar ao ataque dos três vampiros e o ritmo ganharia fluidez. Ainda assim, é uma experiência recompensadora.
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Ficha técnica:
Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira | 2026 | Brasil | 113 min. | Direção: Beto Marquez | Roteiro: Antonia Baudoin | Elenco: Gabriela Dias, Eriberto Leão, Elisa Volpatto, Johnnas Oliva, Otávio Müɫer, Rodrigo Pandolfo, Wilson Rabelo, Natália Lage, Felipe Rocha, Caio Mutai, Ricardo Bittencourt, Lourenço Mutarelli, Letícia Lima.
Distribuição: Capuri.



