Metido a engraçadinho, o título para lançamento brasileiro de Imperfeitamente Perfeita elimina a incidental semelhança entre os nomes da protagonista Ella McCay e da atriz que a interpreta, Emma Mackey. O diretor e roteirista do filme, James L. Brooks, não escreveu o papel especialmente para ela, mas a proximidade fonética reforça a sensação de que a escolha de elenco acertou em cheio. Emma Mackey possuiu uma radiante presença na tela, de acordo com o que deve transparecer a sua personagem, uma mulher forte que precisa ainda ajustar alguns elementos em sua vida para encarar a grande oportunidade de assumir o cargo de governadora interina, aos 34 anos.
O elenco acerta também na escolha de Julie Kavner, a assessora de Ella McCay que assume a narração do filme, como ela própria afirma. A sua voz (familiar para os fãs de Woody Allen, que a dirigiu em sete de seus filmes, e de Os Simpsons, série animada que conta com sua dublagem como Marge) traz um conforto para o espectador, que se encanta com as suas observações sagazes. É ela quem nos conduz para os flashbacks, essenciais para a construção da personagem principal.
Os três homens que são um conflito
A força, mas também a fraqueza, de Ella McCay, nasce aos seus 16 anos, quando vem à tona que o seu pai Eddie (Woody Harrelson) teve relações sexuais com várias mulheres no hospital onde trabalha. Por isso, ele, a mãe (Rebecca Hall) e o filho caçula se mudam para a Califórnia. Ella prefere ficar e morar com a tia Helen (Jamie Lee Curtis). A mãe morre algum tempo depois, e Ella só revê o pai 13 anos depois, justamente agora nesse momento decisivo para a sua carreira.
No outro flashback importante, Ella começa a namorar o seu futuro marido Ryan (Jack Lowden). O filme deixa claro que o conflito com o pai a influenciou nessa escolha, pois pesou o fato de ele ter uma família que ela considera normal. Mas, Ryan é outro homem que vira um problema a ser resolvido para Ella assumir o novo cargo. Ele gerencia (com desonestidade) o restaurante que era da família, mas não desgruda da esposa, esperando uma chance de se aproveitar do sucesso dela. Acaba forçando essa oportunidade de uma maneira bem suja.
O terceiro homem que demanda a atenção de Ella é o seu frágil irmão Casey (Spike Fearn). Inábil socialmente, ele vive trancado em casa, trabalhando com cálculos de probabilidade para apostadores online. Ella precisa ajudá-lo a sair dessa situação de quase agorafobia para reencontrar a garota que ele quer namorar.
Bom gosto sem empolgar
Considerando o empoderamento das mulheres atualmente, essas situações do enredo colocam o filme numa sinuca de bico. Evitar conclusões edificantes desagradaria a maior parte do público – e ainda correria o risco de enfraquecer a protagonista, o que é mais grave. Resta, então, caminhar para o óbvio. Ella endurece, não se curva aos pedidos de perdão do pai, desmascara de vez o seu marido aproveitador, e dá o empurrãozinho que seu irmão precisa.
James L. Brooks não inventa a roda, nem no roteiro e nem na direção. Mas, é experiente e tem bom gosto. Filma com fluidez, em estilo clássico, para não ofuscar os diálogos que escreveu. O elenco se destaca, principalmente Emma Mackey e Julie Kavner. A única exceção negativa é Jamie Lee Curtis, em atuação exagerada que força a função de alívio cômico de sua personagem. É um filme que não chega a empolgar, mas que entrega uma experiência agradável.
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Ficha técnica:
Imperfeitamente Perfeita | Ella McCay | 2025 | 115 min. | EUA | Direção: James L. Brooks | Roteiro: James L. Brooks | Elenco: Emma Mackey, Jamie Lee Curtis, Jack Lowden, Kumail Nanjiani, Ayo Edebiri, Julie Kavner, Spike Fearn, Albert Brooks, Woody Harrelson, Rebecca Hall.
Distribuição: 20th Century Studios.



