Dirigido por Philip Kaufman, Invasores de Corpos é a refilmagem de Vampiros de Almas (1956), de Don Siegel. Nos anos 1950, esse clássico da ficção-científica serviu como uma metáfora da paranoia anticomunista. Mais de 20 anos depois, a Guerra Fria já estava morna, mas o clima de desconfiança continuava forte, principalmente nos países governados por regimes ditatoriais. Na verdade, é um tema universal e atemporal. Por isso, o livro de Jack Finney ainda renderia mais uma boa adaptação: Invasores (2007), dirigida por Oliver Hirschbiegel e estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig.
Na versão dos anos 1970, Philip Kaufman aproveita todos os momentos para construir um clima horripilante. Sem perder tempo, durante os créditos iniciais, revela como organismos alienígenas se desprendem de outro planeta e chegam à Terra pela atmosfera. E, aqui, começam a se alastrar através de um processo de reprodução diferenciada. A princípio, clonando vegetais, mas depois alcançando os seres humanos.
Estranheza por todo lado
Kaufman aproveita a geografia da cidade de San Francisco, famosa por suas ladeiras íngremes, para filmar planos inclinados. Esse recurso marcou o expressionismo e o film noir, para provocar a sensação de estranheza. Com o mesmo objetivo, o diretor escolhe enquadramentos de escadas, cria bloqueios na tela com paredes ou móveis, e coloca personagens refletidos em espelhos. A iluminação de baixo para cima sobre o protagonista Donald Sutherland, em um certo momento, lhe confere uma impressão dramática e assustadora. Além disso, a fotografia também cria sombras enormes.
Como detalhe adicional, o vidro do para-brisa rachado do carro do personagem principal acentua o incômodo do ambiente urbano onde alguns cidadãos percebem que pessoas próximas estão esquisitas. A personagem de Brooke Adams vai mais longe e desconfia que o homem que está na sua casa não é o seu marido. Outros atores conhecidos – Veronica Cartwright, Leonard Nimoy e Jeff Goldblum – completam o grupo principal de personagens.
A narrativa acompanha a rapidez da invasão dos alienígenas. Basta uma pessoa adormecer perto de uma das plantas com DNA extraterrestre para que um processo de clonagem se inicie. A ficção-científica logo adquire características de terror. O clone germina numa vagem enorme e, na etapa seguinte, a criatura em vias de se tornar humana mantém uma aparência horrível de larva em metamorfose, coberta de fios brancos. Lembra um bicho de seda – e, curiosamente, a capa do álbum “Very ‘eavy… Very ‘umble”, da banda Uriah Heep, lançado bem antes, em 1970.
Imagens marcantes
Mas, outras imagens aterrorizantes ainda surpreendem o espectador. Uma delas é um chocante cachorro com cabeça humana, claramente uma clonagem que deu errado. Além disso, quando o clone está completo, a pessoa original se deteriora, adquirindo uma impressionante fragilidade oca. Os sons incrementam o terror. Em alguns trechos, se ouve uma música dramática. Em outros, uma trilha que parece aquele barulho de um exame de ultrassom. E, os seres clonados dão um sinal de alarme quando encontram um humano original apontando com o braço, abrindo a boca enormemente e emitindo um som indescritível. É com uma imagem dessa que o filme acaba, numa conclusão arrasadora.
Todos esses aspectos materiais não funcionariam com tamanha força dramática caso a narrativa não sustentasse o que motiva tudo isso. A invasão acontece rapidamente, e o filme se concentra num grupo de cinco pessoas. Dessa forma, permite que se acompanhe o impacto do início da propagação alienígena, cada vez atingindo mais pessoas. A partir de certo ponto, membros desse grupo também podem ter sido substituídos por clones. O suspense cresce: quem ainda é confiável?
Revi Invasores de Corpos agora, depois de mais de 30 anos desde a última vez que o assisti. As surpresas já não me abalam, pois suas impressionantes imagens nunca saíram da minha cabeça. Na revisão, portanto, o que importa é como o filme foi dirigido. Há um equilíbrio entre a narrativa e o horror materializado na tela. Quanto mais terror, mais forte é a paranoia. O ciclo vai se fechando até adquirir níveis sufocantes. Philip Kaufman conduz o espectador para poder surpreendê-lo num dos finais mais bem construídos do cinema.
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Ficha técnica:
Invasores de Corpos | Invasion of the Body Snatchers | 1978 | 115 min. | Estados Unidos | Direção: Philip Kaufman | Roteiro: W.D. Richter | Elenco: Donald Sutherland, Brooke Adams, Jeff Goldblum, Veronica Cartwright, Leonard Nimoy. Lelia Goldoni.









