Por exibir em Cannes seu filme Leila e Seus Irmãos (2022) sem a autorização do governo iraniano, o diretor Saeed Roustaee foi condenado a seis meses de prisão e cinco anos de proibição de exercer sua profissão, sentença que foi comutada posteriormente. Agora, ele retorna com Mãe e Filho, um envolvente melodrama de amor e ódio que pode ser lida como uma metáfora das emoções que sentiu nessa difícil etapa de sua carreira.
A enfermeira Mahnaz (Parinaz Izadyar), viúva com dois filhos, está encantada com o seu namorado Hamid (Payman Maadi), um motorista de ambulância que ganha dinheiro por fora com alguns trambiques. Com seu papo galanteador, Hamid a convence a se casar com ele. Porém, na reunião de famílias para formalizar o pedido, o noivo mostra que sua malandragem não se limita ao trabalho. Descaradamente, ele dá em cima de Mehri (Soha Niasti), a irmã mais nova de Mahnaz. No hospital, uma amiga de Mahnaz já a havia alertado sobre o caráter desse homem.
O filho mais velho de Mahnaz se chama Aliyar (Sinan Mohebi), um adolescente encrenqueiro que arruma problemas na escola e fica perto de ser expulso. Sem interesse nos estudos, ele ganha dinheiro com apostas e costuma se atrasar para as aulas. Outros membros da família da protagonista também têm um pé na trambicagem. A mãe, que mora junto, paga para Aliyar fazer suas lições de um curso de inglês, e Aliyar, por sua vez, paga uma parte do que recebeu para que a sua irmã caçula, Neda (Arshida Dorostkar), faça a lição da avó e a dele.
A direção virtuosa de Saeed Roustaee
Um belo plano geral que filma de cima a área interna dos elevadores do prédio onde Mahnaz mora capta Aliyar saindo para a escola com a irmã, brincando de quem chega mais rápido, a irmã pelo elevador ou ele pela escada. Uma suave música tocada ao piano transforma esta cena num momento terno, levando ao espectador o sentimento da mãe em relação aos filhos. Não importa se eles fazem coisas erradas, assim é a perspectiva de uma mãe.
Roustaee enriquece a experiência do espectador instigando-o a se atentar ao que exibe na tela. O plano geral citado no parágrafo anterior retorna ao filme posteriormente, desta vez sem Aliyar, vítima de uma tragédia. A música, agora, entoa uma sensação de tristeza. Da mesma forma, o ato de infidelidade de Hamid aparece num detalhe. Quando Mehri lhe serve o suco, ele escolhe de propósito o copo de Mehri manchado de batom. Um pouco antes, quando Mahnaz carrega os brinquedos de Aliyar para esconder dos pais de Hamid que ela tem filhos, um garoto que é amigo de Aliyar observa desconfiado. Sem intenção, ele será o estopim da tragédia.
O desespero de Mahnaz na emergência do hospital é crucial para tornar esta cena emocionante. Mas, também, para justificar seu posterior desnorteamento ético. Ela se deixa contaminar pelo ódio. Quer punir o sogro que bateu no filho, o supervisor da escola que quis expulsá-lo, o seu ex-noivo mulherengo e a irmã que cai nos truques de sedução dele. Porém, o ódio só alimenta mais ódio, como ela percebe ao quase perder a guarda da filha.
Redenção pelo amor
O gatilho para a sua redenção, no entanto, vem na forma mais singela possível. Com o nascimento do filho de Mehri (que se convenceu tarde demais que Hamid não presta), registrado com o nome Aliyar, Mahnaz se reencontra com o amor. Reunida com a mãe, a irmã e a filha, elas se abraçam, enquanto o imprestável Hamid não pode participar dessa comunhão, separado pela parede de vidro.
Mãe e Filho confirma o talento de Saeed Roustaee, criador de um roteiro potente que ele mesmo dirige com uma gramática virtuosa. Além disso, o filme sinaliza que o diretor superou um possível ódio por ter sido condenado, para seguir em frente com o seu amor pelo cinema.
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Ficha técnica:
Mãe e Filho | Woman and Child | 2025 | 131 minutos | Irã | Direção: Saeed Roustaee | Roteiro: Saeed Roustaee | Elenco: Parinaz Izadyar, Payman Maadi, Sinan Mohebi, Soha Niasti, Hassan Pourshirazi, Fereshteh Sadre Orafaee.
Distribuição: Retrato Filmes.



