Por conta do prestígio que conquistou com A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), apenas seu segundo longa, Lee Cronin já tem seu nome autorando o título do seu filme seguinte, Maldição da Múmia, lançado no mercado norte-americano e em outros países como “Lee Cronin’s The Mummy”. A fórmula básica é a mesma: o diretor e roteirista personaliza um material conhecido.
Tendo a Blumhouse como uma das empresas produtoras, a proposta principal é distanciar este novo filme das aventuras arqueológicas com essa criatura estreladas por Brendan Frazier e focar no terror, como em A Múmia (1932), da Universal. Nesse sentido, a escolha de Lee Cronin faz todo sentido, considerando que o seu Evil Dead é um dos mais assustadores da franquia.
Entretanto, a espinha dorsal da trama é uma investigação que envolve a ajuda de um especialista arqueológico. Mas, de fato, não segue o padrão da escavação arqueológica que encontra um sarcófago e desperta a múmia que está lá dentro. Desta vez, a múmia tem papel ativo. Como mostra o prólogo, uma família no Egito mora numa casa construída sobre uma caverna que possui uma pequena pirâmide. Dentro dela, jaz uma múmia que aguarda o seu momento de despertar. A mãe da família é uma maga, e ela sabe que essa hora chegou.
Após os créditos de abertura, o filme se volta para uma família americana que vive no Cairo. O espectador testemunha o que os outros personagens não podem ver, que é aquela maga do prólogo atraindo a filha caçula Kate com doces e uma nectarina (substituindo a maçã do conto “Branca de Neve”). O pai, Charlie Cannon (Jack Reynor) percebe tarde demais. Parte atrás da mulher que leva sua filha, mas, atrapalhado por uma imensa tempestade de areia, não a alcança.
Idas e vindas
Nessa parte inicial, o filme quebra bastante a narrativa. Assim, oito anos depois, a família de Charlie está de volta a Albuquerque (e não Nova York, onde ele começaria seu emprego dos sonhos, indicando que ele perdeu a oportunidade depois do abalo sofrido pelo desaparecimento de sua filha). Agora, mora com a esposa Larissa (Laia Costa), o filho mais velho Sebastián (Shylo Molina) e Maud (Billie Roy), a filha que ainda estava na barriga da mãe quando Katie sumiu. Todos vivem na casa da mãe de Larissa.
A narrativa volta para o Cairo, onde acontece um acidente de avião. Entre os destroços, uma morte terrível (são várias durante o filme) e um misterioso sarcófago intacto. Dois pesquisadores conseguem abrir esse caixão diferenciado, e encontram lá dentro uma pessoa ainda com vida. Charlie recebe um telefonema: encontraram a sua filha Katie e com vida.
A partir daí, com o retorno de Katie, em estado lamentável, para casa, começa para valer o terror de Maldição da Múmia. Diante de tudo o que foi exposto até esse momento, o espectador já sacou o que aconteceu com Katie. Mesmo sem toda essa informação, parece um pouco patético que os pais, e principalmente a avó dela, não percebam que a menina não está apenas debilitada física e emocionalmente pelo que sofreu nos últimos oito anos. Nem mesmo depois que Katie se contorce e tem espasmos como a Reagan de O Exorcista (1973), inclusive com vômitos, eles mudam de ideia.
Terror interrompido
Enquanto a família hesita entre a compaixão e o medo, o diretor Lee Cronin tenta manter o mistério enquanto aterroriza o público. Sai-se bem nesse último quesito (a cena da unha é inventiva e extremamente perturbadora). Mas, ao se esforçar demais para assustar, deixa evidente o que Katie se tornou. Como em Poltergeist (1982), uma menina é a escolhida para conhecer o mundo dos mortos.
As investigações de Charlie, porém, continuam. Não só com o arqueólogo, mas também com a detetive Dalia Zaki (May Calamawy) no Cairo. Surgem muitos tempos mortos, que alongam o filme sem necessidade, a não ser esclarecer os detalhes sobre a tal maldição da múmia Nasmaranian, que coloca os membros de uma família uns contra os outros. Resulta num filme de 2 horas e 13 minutos, duração longa que não é comum no gênero terror.
Maldição da Múmia tem momentos assustadores, que impactam bastante com imagens perturbadoras. Porém, por conta desse vai e vem de situações, não consegue sustentar a tensão, como acontece no sufocante A Morte do Demônio: A Ascensão. Algumas cenas ameaçam descambar numa explosão de violência gore e eventos horripilantes, mas não vão até o fim. Um exemplo desse efeito é a cena do velório.
A conclusão também não entrega o terror apocalíptico que se espera. Além disso, aguardamos em vão por uma cena pós-créditos com o fechamento apropriado do enredo, que mostre a nova múmia de volta ao sarcófago para repousar sem sair por aí espalhando o terror.
Alguns detalhes horripilantemente criativos – além dos citados acima, vale destacar ainda a louca ideia de uma personagem ter que pressionar as cordas vocais pelo buraco aberto no pescoço para conseguir emitir a voz – ficam na memória depois da sessão. Mas durante a experiência, o melhor terror fica espalhado entre buracos narrativos.
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Ficha técnica:
Maldição da Múmia | Lee Cronin’s The Mummy | 2026 | Estados Unidos | Direção: Lee Cronin | Roteiro: Lee Cronin | Elenco: Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Veronica Falcón, Natalie Grace, Shylo Molina, Billie Roy, May Elghety, Hayat Kamille.
Distribuição: Warner Bros. Pictures.



