Michael

Poster do filme "Michael" (divulgação/Universal Pictures)

Título original: Michael

Direção: Antoine Fuqua

Ano de lançamento: 2026

Data de estreia no Brasil: 23/04/2026

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 6/10

Michael, cinebiografia do ídolo pop Michael Jackson (1958-2009), é uma produção grandiosa, como teria que ser para ter a mínima credibilidade considerando o tamanho deste que é o artista mais bem-sucedido de todos os tempos segundo o Guinness World Records. Por isso, nada de arriscar com roteiristas ou diretores novatos. Quem assume essas funções são os mais que experientes John Logan e Antoine Fuqua.

As apostas maiores caem inevitavelmente sobre os atores que interpretam o cantor e dançarino. O estreante Jaafar Jackson (sobrinho de Michael, que é cantor profissional, porém ainda só gravou alguns singles) faz o personagem adulto, e Juliano Krue Valdi (imitador de Michael nas redes sociais) interpreta o protagonista criança. Escolhas bem arriscadas, portanto, mas que dão tremendamente certo. Por essas escolhas, a diretora de elenco, Victoria Thomas, já pode até sonhar em ganhar um Oscar na nova categoria que começou neste ano.

Criando superstars

O principal gancho dramático se concentra no sofrimento que Joseph Jackson (Colman Domingo) causa no caçula Michael. Sua obstinação pelo sucesso dos filhos se assemelha ao do pai das tenistas Serena e Venus Williams, papel interpretado por Will Smith em King Richard: Criando Campeãs (2021), de Reinaldo Marcus Green. Esses dois pais acreditam que, por serem negros na América, só há dois destinos possíveis: serem vencedores ou perdedores.

Joseph, assim, decide que seus filhos formarão um grupo musical de sucesso chamado The Jackson 5. Então, coloca os quatro mais velhos nos instrumentos e Michael como o vocalista. Bem mais novo, com apenas seis anos, Michael é o que mais sofre com os ensaios exaustivos. Porém, se entusiasma quando aparece a primeira oportunidade de se apresentarem num palco, reação que indica sua paixão por cantar e dançar. Essa rotina puxada de shows, ensaios e a vida escolar é demais para Michael, mas o pai e empresário o força a cumpri-la. Diante de qualquer vacilo, Joseph não hesita em castigar o filho com o seu cinto.

O filme, assim, deixa evidente que essa criação, que inclui também a impossibilidade de ter amigos da sua idade por causa da fama, provoca os comportamentos excêntricos do Michael em sua fase adulta. Na verdade, como indica sua fixação pelo personagem Peter Pan, ele nunca amadurece totalmente. Por isso, compra brinquedos e animais exóticos para a sua casa, com quem conversa como se fosse seus amigos. Faz o mesmo, também, com o seu segurança. Como uma eterna criancinha, nunca é capaz de enfrentar o pai.

Um triste conto de fadas

Sintomaticamente, acolhe o produtor musical Quincy Jones (Kendrick Sampson) como o pai que ele gostaria de ter. A infância perdida é o “rosebud” que ele persegue durante toda a sua vida. Essa carência insere uma camada de tristeza nessa cinebiografia. As excentricidades podem provocar risos em alguns espectadores, porém são, no fundo, momentos melancólicos.

Por outro lado, sua vida de contos de fadas (com o pai como a bruxa má) o faz enxergar o mundo de outra forma. Sua sensibilidade aguçada o leva a visitar crianças em hospital, consciência que o filme materializa mais ainda com uma doação grandiosa para o hospital que cuida das queimaduras que ele sofre durante a gravação de um comercial da Pepsi. Alheio à realidade, Michael ainda se impressiona com a violência entre gangues nas ruas de Los Angeles. Então, decide reunir esse pessoal para participar das filmagens do videoclipe de “Beat It”, ideia que só poderia vir de uma mente muito pura (ingênua, talvez?).

Há alguns “easter eggs”, referências que só os mais entendidos vão perceber. Como o ratinho de estimação com quem Michael brinca na cama, que é uma alusão à canção que ele gravou para o filme Ben, o Rato Assassino (1972). Ou o convite que o executivo da CBS oferece para Michael assistir a uma apresentação do mímico Marcel Marceu, que teve enorme influência nas coreografias do astro.  

Um filme de Fuqua e King

Antoine Fuqua filma com competência, como costuma fazer. Em um ou outro momento, impressiona positivamente. Por exemplo, na solução para resolver a imensa elipse de tempo da transição entre o Michael de 10 anos para o Michael adulto. Realiza essa passagem com elegância, ao usar o reflexo do vidro, no escritório do advogado John Branca (Miles Teller).

O produtor de Bohemian Rhapsody (2018) que também está à frente de Michael, como ostentam os materiais de divulgação, é Graham King. Esses filmes se aproximam entre si por serem superproduções que sintetizam a biografia de um astro da música do final do século passado (o outro conta a vida de Freddie Mercury). Mais que isso, a semelhança inclui a estrutura narrativa, que deixa a revelação de uma tragédia para o início do terço final, que é marcado por longos números musicais no palco.

Em Michael, o final da apresentação de “Billie Jean” se encerra com um demorado “fade out” que prenuncia que algo ruim está para acontecer. Depois do acidente que Michael sofre, outros trechos longos de sucessos apresentados ao vivo conduzem os eventos finais que fecham esse recorte na turnê de “Bad”. Essa conclusão com performances musicais estendidas é um expediente para agradar aos fãs do biografado. Certamente deixará felizes os tietes de Michael Jackson – assim com Bohemian Rhapsody me deixou como apreciador do Queen. Mas, o restante do público pode se entediar, pois essa narrativa contada através das músicas tem pouca força dramatúrgica.

Michael acerta em trazer à tona a melancolia que marcou a vida do superastro. Porém, sem a coragem de se aprofundar nesse aspecto, que muitos espectadores desatentos nem perceberão.

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Ficha técnica:

Michael | 2026 | Reino Unido, EUA | Direção: Antoine Fuqua | Roteiro: John Logan | Elenco: Jaafar Jackson, Juliano Valdi, Colman Domingo, Nia Long, Laura Harrier, Miles Teller, Kendrick Sampson.

Distribuição: Universal Pictures.

Trailer:

Onde assistir:
Cena de "Michael" (divulgação/Universal Pictures)

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