Não há melhor momento para assistir ao documentário Noruega: O Retorno Que Promete. Dividido em dois episódios de uma hora cada, a minissérie estreou na Netflix no último dia 9 de junho, quando ninguém imaginava que a seleção escandinava estaria nas oitavas-de-final da Copa do Mundo da FIFA de 2026, prestes a enfrentar o time do Brasil. Conforme entrevistas recentes do artilheiro Erling Haaland e do técnico Ståle Solbakken, da equipe norueguesa, o favoritismo é todo da seleção brasileira. O título em inglês desta minissérie, “Norway: The Dark Horse”, salienta esse sentimento (a expressão significa “O Azarão”, ou “A Zebra”).
O nome original, “Norges vei tilbake”, tem outra tradução: “O Retorno da Noruega”. E refere-se ao hiato de 28 anos do país em Copas do Mundo. Sua última participação na Copa, em 1998, registra dois elementos que enriquecem o mito da Noruega hoje. Primeiro, porque foi eliminada nas oitavas-de-final (o que pode acontecer de novo). Naquela ocasião, pela Itália, que é justamente a seleção que os noruegueses tiraram da Copa de 2026 nas eliminatórias. Além disso, em 1998, Noruega e Brasil se enfrentaram pela única vez em Copas do Mundo – e os nórdicos surpreendentemente venceram por 2 a 1. Soma-se a isso a estatística de que o Brasil nunca venceu a Noruega nem em amistosos (empatou em 1 a 1 nos anos de 1998 e 2006, e perdeu por 2 a 4 em 1997).
As eliminatórias
A produção acompanha, jogo a jogo, a Noruega nas eliminatórias para a Copa de 2026. Apesar de contar com craques de renome internacional, como Martin Ødegaard, Erling Haaland, Alexander Sørloth e Antonio Nusa, a frustração da ausência por seis Copas seguidas colocou um peso enorme nessa geração, como mostra a primeira parte do episódio 1. A série mostra que a liderança do treinador Ståle Solbakken foi fundamental. Isso fica claro na cena em que ele discursa aos seus jogadores no vestiário antes da estreia contra a Moldávia. Seu recado: “Curtam o jogo”. Em campo, o time jogou com leveza, e goleou por 5 a 0, no campo do adversário.
O documentário intercala trechos dos jogos com entrevistas com a equipe e com jornalistas esportivos noruegueses, e cenas dos vestiários. Além disso, traz pequenos recortes das vidas pessoais dos atletas, sendo o mais dramático deles o do técnico, que teve que interromper sua carreira como jogador aos 33 anos quando sofreu um ataque cardíaco quase fatal durante um treinamento.
A Noruega conseguiu um aproveitamento de 100% nas eliminatórias. Passeou em campo e goleou impiedosamente a Moldávia em casa por 11×1 e Israel por 5×0. Mas, houve momentos tensos no confronto contra a Itália, ainda engasgada na garganta dos noruegueses por conta da eliminação na Copa de 1998. Em casa, a Noruega derrotou-a com autoridade (3×0). Porém, a Itália vencera todos os seus jogos, com exceção da derrota para o time norueguês, e poderia se classificar se vencesse o último jogo. Nesse confronto final, entre Itália e Noruega, no Estádio de San Siro, em Milão, a Squadra Azzurra fez 1×0 no primeiro tempo. O primeiro episódio termina com um gancho emocional (o chamado cliffhanger), quando o atacante Antonio Nusa chuta contra o gol da Itália, deixando em suspense o desfecho deste lance.
A real dimensão
O segundo e último capítulo da minissérie, então, desvenda a avassaladora virada da Noruega contra a Itália, fechando o placar em 4 a 1. O resultado significava o tão aguardado retorno da seleção norueguesa para uma Copa do Mundo. E, de quebra, uma vingança tardia contra a Itália, que ficaria de fora do torneio. Encerrada essa narrativa, o que haveria para mostrar nos 30 minutos restantes do documentário?
Um fator crucial para dar a real dimensão da Noruega em relação à Copa do Mundo de Futebol está na comemoração em praça pública pela classificação para o torneio. Os torcedores lotaram o local para ovacionar como heróis a equipe que conseguiu essa tão desejada façanha. Veja bem, o evento celebra somente a vaga na Copa, algo que em outros países com mais tradição no futebol, como no Brasil (que nunca ficou de fora de nenhuma edição da disputa), esse feito é encarado mais como uma obrigação.
O documentário, então, começa uma contagem regressiva de preparação da Noruega para a Copa, já oficialmente se chamando de azarões. Com esse espírito, comentam sobre o grupo da Primeira Fase, que a França é imbatível e Senegal difícil – existe uma lacuna aí, pois não se menciona o Iraque, a outra seleção do Grupo I. Como já passamos desta fase, podemos confirmar que o discurso não era vazio. De fato, a Noruega venceu com dificuldades o Senegal (3×2), e nem escalou seus principais jogadores contra a França, e foram derrotados por 4 a 1. Como detalhe, essencial para passarem à Segunda Fase, venceram o Iraque por 4 a 1.
Curtindo as vitórias
Fatalmente, o segundo episódio perde o fôlego. Passa pela visita aos locais onde a Noruega jogará nos Estados Unidos, e amistosos com resultados pouco animadores. Tenta-se criar um clima de expectativa para a convocação, com a câmera filmando um dos atletas em dúvida sobre sua inclusão. O formato escolhido para o anúncio da Federação de Futebol da Noruega não ajuda muito. Um filme curto mostra cada nome de convocado escrito em algum objeto aleatório – o do atleta em foco, por exemplo, está escrito em uma boia num barco. Tão estranho que o jogador nem tem certeza se foi convocado.
Enfim, o mais importante veio antes. E confirma a posição de azarão da Noruega na Copa do Mundo. A pressão maior, a de se classificarem nas eliminatórias, ficou para trás. Estar na Copa é a maior vitória, mas nesse espírito de curtirem o jogo, os noruegueses podem surpreender. Por outro lado, se pouparam atletas no jogo contra a França, isso significa que não estão no torneio apenas para se divertir. Assumindo a condição de zebras, já conquistaram o suficiente para serem recebidos em casa com festejos – o que não significa que não almejam ir além.
De quebra, a condição de azarão do time norueguês traz a beleza de valorizar as pequenas conquistas – as “remadas” dos jogadores junto com a torcida após as vitórias representam essa mentalidade. Nesse sentido, Noruega: O Retorno Que Promete lembra o documentário Anvil! A História de Anvil (2008), de Sacha Gervasi, sobre a banda de heavy metal dos anos 1980 que nunca alcançou o primeiro patamar do estrelato, mas que teve seus momentos de glória.
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Ficha técnica:
Noruega: O Retorno Que Promete | Norges vei tilbake | 2026 | 121 min. (2 episódios) | Noruega | Direção: Emil Trier | Roteiro: Emil Trier | Elenco: Erling Haaland, Martin Ødegaard, Ståle Solbakken, Antonio Nusa, Alexander Sørloth, Oscar Bobb.
Distribuição: Netflix.










