O diretor François Ozon gosta de desafios. Em seu filme Peter von Kant (2022), ousou realizar uma versão livre de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), de Rainer Werner Fassbinder. Agora, em O Estrangeiro, adapta para as telas o livro mais conhecido de Albert Camus e uma das obras literárias mais influentes do século XX.
Para isso, chama o ator Benjamin Voisin, a quem já dirigiu em Verão de 85 (2000), para interpretar o protagonista Meursault. Um papel difícil de representar, por ser um personagem calado e que precisa expressar o seu desinteresse por tudo. Se não conseguir demonstrar essa atitude peculiar, o filme não tem sentido.
Desinteresse pela vida
Ozon e Voisin conseguem essa proeza. A fotografia em preto e branco colabora na caracterização da vida sem graça aos olhos de Meursault. Na primeira parte do filme, sua mãe morre e ele cumpre sua obrigação de se dirigir até o local, que fica longe de Argel, onde mora. É 1930, e o transporte ainda é precário. Parte do trecho ele percorre a pé, sob um sol escaldante. No asilo, vê o caixão, mas não quer que o abram. Passa a noite em vigília. De dia, acontece o enterro. E em nenhum momento chora pela morte da mãe.
Meursault demonstra uma atitude de indiferença semelhante no relacionamento com a bela Marie Cardona. Essa personagem é interpretada por Rebecca Marder, que Ozon também já dirigiu antes, em O Crime é Meu (2023). E que, emblematicamente, interpretou a protagonista de A Garota Radiante (2021), dado que provoca um inevitável contraste com o personagem de Voisin em O Estrangeiro.
Coitada da Marie. Apaixona-se por Meursault, mas este nunca lhe retribuiu esse sentimento. Ele aceita se casar com ela, mas é incapaz de dizer que a ama. Em outra demonstração de indiferença, Meursault não interfere quando o casal ouve o vizinho bater numa mulher.
Esse mesmo vizinho convida Meursault e Marie a passarem uns dias na casa de um amigo na praia. Lá, dois árabes, um deles o irmão da mulher agredida, os confrontam na areia. O grupo francês recua quando um dos árabes saca uma faca. Um pouco depois, Meursault volta à praia e mata o irmão da moça com um revólver. No julgamento, pesam contra ele a incapacidade de se arrepender pelo crime e a ausência de lágrimas durante o velório da sua mãe.
Conclusão frustrante
Até o fim da cena do tribunal, O Estrangeiro mantém o espectador absorto em conhecer profundamente esse protagonista diferente. Porém, a partir daí, o filme perde força pelas escolhas erradas de François Ozon. O trecho onírico revela no inconsciente de Meursault o seu medo da morte e a consideração pela mãe, mas isso pede um aprofundamento maior que o filme não desenvolve. A discussão com o padre, da mesma forma, possui uma agressividade que parece não caber na indiferença do protagonista. Além disso, as narrações em off de trechos do livro de Albert Camus estão desconectadas com o que as cenas mostram.
Assim, justamente na conclusão que deveria elevar o que o filme construiu até esse ponto, Ozon perde a mão e a oportunidade de cravar o que talvez seria seu melhor trabalho.
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Ficha técnica:
O Estrangeiro | L’Étranger | 2025 | 122 min. | França, Bélgica, Marrocos | Direção: François Ozon | Roteiro: François Ozon, Philippe Piazzo | Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Mireille Perrier, Christophe Malavoy, Nicolas Vaude, Jean-Charles Clichet, Hajar Bouzaouit.
Distribuição: California Filmes.



