O Pequeno Soldado é o segundo filme que Jean-Luc Godard dirigiu. Foi finalizado em 1960, mas foi banido na França por causa das cenas de tortura. O lançamento definitivo só ocorreria em 1963. O longa marca também a primeira parceria do diretor com sua futura esposa Anna Karina.
Se Acossado (À bout de souffle, 1960) era a versão nouvellevaguista do filme policial, O Pequeno Soldado representa o mesmo em relação ao gênero espionagem. A trama acompanha Bruno Forestier (Michel Subor), um fotógrafo francês que mora em Genebra, na Suíça, porque desertou do exército e, se voltar ao seu país, será preso. Ele trabalha para um grupo de inteligência francês de direita, em um ambiente político conturbado por causa da Guerra da Argélia.
Seus colegas suspeitam que ele é um traidor. Então, para provar o contrário, ele deve assassinar um radialista a favor da independência da Argélia. Mas, ele tem dificuldades de executar essa missão. Acaba sendo capturado por argelinos, que o torturam, com métodos muito realistas. As agressões se tornam mais violentas gradativamente, sempre com a preocupação de não deixar marcas. E envolvem choques elétricos, afogamento, asfixiamento, entre outras atrocidades.
Em paralelo, Bruno conhece e se apaixona pela modelo Veronica Dreyer (Anna Karina). Mas, ele não sabe que ela faz parte da FLN (Frente de Libertação Nacional), organização à qual pertencem os seus torturadores.
Godard autoral
Godard incrementa o seu cinema autoral neste segundo longa. Mais que alguns jump cuts, o que chama a atenção é o uso intenso dos chicotes (um brusco e rápido movimento lateral da câmera). Esse recurso aparece já no primeiro trecho, quando o movimento da panorâmica clássica descamba num inesperado chicote até chegar ao protagonista Bruno.
A liberdade de filmar quebrando cânones do cinema está bem evidente na longa sequência com Bruno no apartamento de Veronica. Nela, a narrativa fica de lado. O que importa é mostrar uma interação tão natural entre duas pessoas que acabam de se conhecer. Os dois conversam enquanto ele tira fotos dela. Entre outros assuntos variados, falam sobre pintura, música, e dançam.
O uso da narração em primeira pessoa do protagonista é recorrente. Essa característica literária, que acompanha a carreira de François Truffaut, é apropriada por Godard. Mas, à sua maneira. Mais intelectualizado que seu colega da Cahiers du Cinéma, Godard cita trechos de pensadores políticos, e mostra a capa dos livros que os personagens leem. Por exemplo, a assistente no apartamento onde acontece a tortura, que segura, entre outros, um livro de Mao Tsé-Tung. A semente para o Maoísmo que orientou a militância política de Godard estava plantada.
O Pequeno Soldado confirma o Godard autoral e revela o Godard político. Seu filme de espionagem soa truncado, pela escolha consciente do cineasta em quebrar os padrões clássicos. Mas, um pouco prejudicado por personagens masculinos que se parecem muito entre si. É um filme que rende bastante na revisão, pois, uma vez esclarecida a trama nebulosa, o espectador fica livre para apreciar o estilo rebelde da Nouvelle Vague.
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Ficha técnica:
O Pequeno Soldado | Le Petit Soldat | 1963 | 88 min. | França | Direção: Jean-Luc Godard | Roteiro: Jean-Luc Godard | Elenco: Michel Subor, Anna Karina, Henri-Jacques Huet, László Szabó, Paul Beauvais.



