O Silêncio das Ostras

Poster de "O Silêncio das Ostras" (divulgação)

Título original: O Silêncio das Ostras

Direção: Marcos Pimentel

Ano de lançamento: 2024

Data de estreia no Brasil: 26/06/2025

Gênero:

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7/10

O filme O Silêncio das Ostras acompanha a protagonista Kaylane quando criança (interpretada por Lavínia Castelari) e quando adulta (Bárbara Colen). Uma vida marcada pela exploração agressiva das mineradoras instaladas em Minas Gerais. Caçula de uma família de quatro filhos, a menina Kaylane tem uma mãe (Sinara Telles) que sonha em ser cantora, e um pai inválido por causa da insalubridade do trabalho.

Com o tempo, a mãe foge daquele lugar desgraçado. Dois dos irmãos tentam a sorte em outro lugar, e o outro irmão e o pai logo deixarão a vida de Kaylane, que sofrerá sozinha a tragédia do rompimento de uma barreira que arrasa com a região.

Primeira obra ficcional do diretor de documentários Marcos Pimentel, O Silêncio das Ostras possui sua força dramatúrgica numa narrativa essencialmente silenciosa. Característica que, aliás, se alinha à protagonista, que só engata uma conversa mais longa na segunda metade do filme. Mesmo revelando alguns segredos da sofrida vida da mãe, o diálogo impacta menos do que as passagens mudas. Vem dessa incomunicabilidade o título, pois essa gente aguenta o sofrimento calada, como uma ostra, mas sem gerar uma pérola. Ou, talvez, a pérola simbolize o minério que elas ajudam a extrair. De qualquer forma, a riqueza que resulta desse sofrimento acaba virando lucro para outrem.

Símbolos

Por falar em símbolos, o filme está repleto deles. Por exemplo, a menina Kaylane está em uma janela, e a câmera se desloca para baixo para revelar várias formigas ali. Um pouco depois, os trabalhadores da mineradora, filmados de longe, se assemelham a esses insetos. Kaylane adulta adquire o hábito de colecionar insetos – que ela faz questão de afirmar que não mata, que já encontra mortos. Coleta, assim, as carcaças deles, e ela mesmo se transformará numa delas após uma sucessão de infortúnios. Quando ela precisa se sujeitar a atender os desejos sexuais de um dos chefes da mineradora, um trecho surreal (são vários durante o filme) mostra Kaylane deitada no chão com uma barata saindo da boca dela.

A comparação com um animal fica ainda mais acentuada após o estouro da barragem e o soterramento. Kaylana vaga pelos terrenos devastados, comportando-se como e aparentando um animal. Indígenas a salvam do envenenamento pela água contaminada. E, dois planos com as copas de árvores reforçam a ideia da altivez da natureza, evidenciando a insensatez dessa exploração de minérios.

Um símbolo forte, que marca os efeitos da passagem do tempo, é o circo itinerante. Na primeira vez que a trupe se instala na cidade, a mãe de Kaylane cria uma fugaz amizade com a cantora do circo. Cantam juntas, e alimentam os sonhos mútuos. Mas, quando retorna, a agora adulta Kaylane, sozinha porque a mãe fugiu de lá, testemunha a cantora apresentando a mesma canção (“Eva”, do Rádio Táxi) totalmente desmotivada e desglamurizada. Não ficam dúvidas de que, com o tempo, aquele ambiente extrai não só os minérios como também a vida da região.

O inferno na terra

Os ruídos estridentes também acrescentam uma outra característica infernal ao local. E surgem de variadas fontes, das máquinas da mineração, da carroça que carrega os trabalhadores mortos, dos cataventos metálicos, e até das cigarras (que cantam até estourarem, como diz Kaylane).

O trabalho de direção de Marcos Pimentel revela um cuidado especial em posicionar e movimentar a câmera em prol da narrativa. Os movimentos são poucos, às vezes sutis, e seguem a finalidade de levar o olhar do espectador para algum elemento importante (como as formigas citadas acima). A destruição da natureza pela mineradora explode na tela no plano geral das montanhas que desaparecem, e no plano detalhe com o barro escorrendo, que prenuncia os desastres de Bento Rodrigues (2015) e Brumadinho (2019). Da tragédia real, Pimentel chega à dramatização individual da protagonista.  

Ainda que a dramaturgia não seja tão tocante quanto poderia ser, efeito da priorização da imagem sobre a narrativa, O Silêncio das Ostras é, sem dúvida, uma obra de enorme sensibilidade.  

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Ficha técnica:

O Silêncio das Ostras | 2024 | Brasil | 127 min. | Direção: Marcos Pimentel | Roteiro: Marcos Pimentel | Elenco: Bárbara Colen, Lavínia Castelari, Sinara Teles, Adyr Assumpção, Lucas Oranmian, João Filho, Kaio Santos, Daniel Victor, Israel Xavier, Ryan Talles, Carlos Morelli, Lenine Martins, Renato Novaes Oliveira, Lira Ribas, Dinho Lima Flor, Cláudio Lima, Helvécio Izabel.

Distribuição: Olhar Filmes.

Trailer:

Onde assistir:
Bárbara Colen em "O Silêncio das Ostras" (divulgação)
Bárbara Colen em "O Silêncio das Ostras" (divulgação)

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