O Último Azul

Poster do filme "O Último Azul" (divulgação/Vitrine)

Título original: O Último Azul

Direção: Gabriel Mascaro

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 28/08/2025

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7/10

Em O Último Azul, o diretor Gabriel Mascaro novamente especula um triste futuro próximo para o Brasil, como fez em Divino Amor (2019), no qual a religião domina o país. Desta vez, Mascaro cogita uma terrível determinação do governo que obriga que as pessoas acima de 75 anos sejam levadas a uma colônia, de onde nunca mais voltam.

Filmado em locações na Amazônia – nas ruas de terra de um pequeno povoado, nos rios tortuosos, num matadouro de jacarés envolto em névoa branca – e com uma trilha musical etérea, que parece música de planetário, O Último Azul se posiciona entre a fábula artificial de Keisuke Kinoshita e a crueza realista de Shohei Imamura, em suas adaptações (de 1958 e 1983, respectivamente) do livro “A Balada de Narayama” de Shichiro Fukasawa, que trata de uma história sobre idosos de uma aldeia que devem se mudar para uma montanha para ali morrer. Outra produção japonesa, Plano 75 (2022), de Chie Hayakawa, também lida com uma premissa parecida. Nela, quem completa 75 anos pode optar pelo suicídio assistido, recebendo um incentivo financeiro que inclui passar os últimos dias num resort.

Cata velho

No filme de Gabriel Mascaro, Tereza (Denise Weinberg) não pode mais trabalhar e nem viajar porque tem 77 anos (dois a mais que a idade limite para ser enviada a uma colônia). Mas, ela ainda tem muitas coisas para fazer, entre elas, andar de avião. Disposta a, pelo menos, realizar esse desejo, ela foge no barco clandestino de Cadu (Rodrigo Santoro). O filme entra, então, no modo road movie (ou boat movie, neste caso). Perseguida pela polícia que quer colocá-la num “cata velho”, Tereza pega carona com Miriam (Miriam Socarras), conhecida como a “freira do barco”. Repetindo a crítica à religião de Divino Amor, o diretor apresenta essa personagem que vende bíblias eletrônicas, mas nem acredita em Deus.

No entanto, a crítica mais contundente possui um viés político. A protagonista tem um inesperado desvio de conduta, arranhando a sua até então incólume conduta como vítima inconformada. Sua mudança tem uma explicação. Ela resolve seguir o (mau) exemplo de Roberta, para assim fazer valer o slogan que aparece nos céus, em uma faixa puxada por um avião. “O futuro é para todos”, diz a mensagem que supõe um complemento, “desde que você pague por ele”.

A evolução de Gabriel Mascaro

O Último Azul reúne elementos de ficção-científica e fantasia, por isso o uso da trilha musical etérea e da névoa no matadouro. E, comum ao gênero nos tempos atuais, não poderia faltar uma referência sobre a sustentabilidade, aqui materializada nas montanhas de pneus descartados na margem do rio. Dentro do fantástico, entra o caracol de baba azul, líquido que permite uma pessoa ver o futuro. Ao invés de mostrar o que os personagens veem durante essa experiência, o filme prefere se restringir às suas reações. Com isso, priva o espectador de vivenciar essa emoção, assim como evita o suspense na cena em que Tereza se esconde num parque de diversões abandonado. Plasticamente, se sobressai a fotografia de Guillermo Garza, em especial nos contrastes que opõem interiores com exteriores no mesmo plano, e na luta entre os peixes.

O filme revela uma evolução de Gabriel Mascaro como diretor, porém prejudicado por um roteiro (que ele assina junto com Tibério Azul) que explora uma variante no subgênero idosos na ficção-científica complicando desnecessariamente alguns detalhes (por que não deixar logo a protagonista com 75 anos?, qual o motivo de criar um hiato temporal entre as homenagens e a decisão de enviá-la para a colônia?). E, ademais, este é um enredo que pede cenas mais intensas de suspense e ação, contudo, o longa prefere manter-se firme na ficção-científica.

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Ficha técnica:

O Último Azul | 2025 | 85 min. | Brasil | Direção: Gabriel Mascaro | Roteiro: Gabriel Mascaro, Tibério Azul | Elenco: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo, Rosa Malagueta, Clarissa Pinheiro, Dimas Mendonça, Daniel Ferrat, Heitor Lóris, Rafael Cesar, Isabela Catão, Daniela Reis.

Distribuição: Vitrine Filmes.

Trailer:

Onde assistir:
Rodrigo Santoro e Denise Weinberg em "O Último Azul" (divulgação)
Rodrigo Santoro e Denise Weinberg em "O Último Azul" (divulgação)

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