O documentário Placar – A Revista Militante conta a trajetória deste ícone da imprensa brasileira que existe há 55 anos. Especializada em esportes, principalmente (como não poderia ser diferente) em futebol, a revista Placar nasceu em 1970, em plena ditadura militar, num ambiente repressor que instigou o espírito libertário que sempre a moveu, como diz no filme Juca Kfouri, que ocupou vários cargos na publicação, inclusive diretor de redação.
Nome indissociável da Placar, Kfouri se junta a outros notórios profissionais que nela atuaram para prestar seus depoimentos no documentário, como Paulo Vinicius Coelho, Celso Unzelte, Ronaldo Kotscho e muitos outros. Craques que estamparam capas e várias páginas da Placar também estão no filme, como Pelé, Casagrande, Zico etc. É um trabalho de insiders, pois o caminho para chegar a tantos nomes foi encurtado porque os diretores Ricardo Correa e Sérgio Xavier Filho também estão ligados profissionalmente à revista.
As lutas de uma revista com princípios
O título do documentário revela o diferencial da Placar, embutido no espírito libertário citado por Kfouri. Por ser um veículo voltado para o futebol, a revista conseguiu driblar a censura militar e tocar em temas que eram proibidos de serem publicados na imprensa em geral. Algo que a Veja, da mesma editora Abril, não conseguia.
Assim, o filme destaca a luta pioneira do jogador Afonsinho pelo passe livre para a categoria, nos anos 1970. Na década seguinte, a ousadia da Placar cresceu, levando ao apoio ao movimento da Democracia Corintiana liderada pelos jogadores Sócrates, Casagrande e Vladimir, inicialmente propondo uma gestão conjunta com a diretoria do clube, mas depois escalando para temas abertamente políticos, como estampar na camisa do time palavras de incentivo ao voto para governador na primeira eleição direta após o Golpe de Estado. Posteriormente, essa verve panfletária ainda levaria ao episódio da foto de Pelé com a camisa da campanha Diretas Já.
Além da Liberdade, a Placar tocava também na Justiça. Daí vem o seu DNA do jornalismo investigativo, que levou ao dossiê que revelou as fraudes da loteria esportiva, um trabalho corajoso que levou mais de um ano.
Placar – A Revista Militante cobre também a história da revista, que passou por uma reforma em 1995. Conhecida pelo lema “futebol, sexo e rock’n’roll”, esta fase almejava alcançar o público mais jovem. Porém, ao seguir a sociedade daquela época, os envolvidos hoje admitem que caíram num sexismo e num machismo que agora soam absurdos.
Documentário essencial
O documentário traz, junto com o depoimento de pessoas envolvidas com a revista Placar, um valioso material que ilustra o que se está comentando, com fotos, capas e matérias publicadas pelo veículo. A narrativa cronológica, aqui, não impede a estruturação por temas – os principais deles acima comentados.
Para quem comprava a revista semanalmente (entre 1970 e 1990), o documentário é um tocante resgate nostálgico, que relembra memoráveis matérias publicadas na Placar. Porém, seja para quem a acompanhou posteriormente, ou mesmo para aqueles que nunca a leram, Placar – A Revista Militante registra a importância deste marco da imprensa nacional. É essencial para se conhecer a história do Brasil do futebol e da política.
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Ficha técnica:
Placar – A Revista Militante | 2024 | 101 min. | Brasil | Direção: Ricardo Corrêa, Sergio Xavier Filho.
Distribuição: Kajá Filmes.



