O premiado diretor de óperas Damiano Michieletto estreia em longa-metragem com Primavera, um filme baseado no livro “Stabat Mater” (2008), de Tiziano Scarpa. Como era de se esperar, o debute de Michieletto está conectado intimamente com a música.
A história se passa em Veneza, em 1776. A protagonista Cecilia, interpretada por Tecla Insolia, é uma órfã acolhida pela Ospedale dela Pietà, instituição que prepara as meninas residentes para serem musicistas de orquestra. Quando o orfanato começa a perder doadores para uma escola concorrente, o seu diretor decide trazer de volta o compositor Antonio Vivaldi, que não conseguiu bons resultados em sua empreitada fora dali. Em pouco tempo, Vivaldi reconhece o talento da violinista Cecilia, e a elege para a posição de 1º violino da sua orquestra. As apresentações das novas sinfonias de Vivaldi agradam ao público e todos querem conhecer a violinista prodígio.
O filme dedica muita atenção aos costumes daquela época e daquele local. E eles são decisivos para a trama. Naqueles tempos, era habitual que as moças fossem prometidas para se casarem em troca de um dote. Inclusive, essa era uma das fontes de receita para a Pietà. Cecilia, por sinal, estava comprometida a firmar matrimônio com um importante oficial do exército assim que a guerra acabasse. Enquanto isso, ela poderia se dedicar à música.
Aprisionada
A protagonista se vê sempre aprisionada. Primeiro, pela esperança de que a sua mãe se arrependa de a ter abandonado quando bebê e venha buscá-la. Em relação a isso, há o curioso detalhe da figura rasgada ao meio que as mães deixam com a sua bebê. Dessa forma, se elas decidirem resgatá-la no futuro, podem provar sua filiação apresentando a outra metade da figura. Vivaldi a convence a se libertar dessa ilusão, colocando a música em primeiro lugar na sua vida. Uma sequência em que ela toca no campo e observa as folhas das árvores em movimento estabelece essa libertação.
No entanto, a satisfação com as apresentações triunfais não dura muito. A guerra acaba, e Cecilia precisa cumprir a promessa de casamento feita pelo diretor. A introdução ao pretendente é marcada pela tensão da trilha musical tocada em acordes nervosos no violoncelo. Casar-se, para ela, significa se transferir do ambiente de prisão do orfanato para uma situação similar no casamento. Porém, sem a música, e sem Vivaldi. A solução radical que ela encontra usa inteligentemente a seu favor a exigência de uma noiva virgem.
Estranhamente, o terço final do filme afasta a ideia de que a música é a maior prioridade de Cecilia. Como dito acima, é pela música que ela preferia ficar aprisionada num quarto no subsolo do orfanato do que casada com um homem que ela não ama e sem poder se dedicar à sua arte. Essa convicção eleva o drama da violência machista do pretendente contra a mulher prometida a ele (ou que ele pretendia comprar, se analisarmos com distanciamento esse costume hediondo), pois o ato a incapacita de tocar violino.
Em busca da liberdade
Contudo, sua atitude final revela que o que ela mais buscava era a liberdade. Pela primeira vez, ela tira a sua touca da cabeça, simbolizando sua conquista. A música, portanto, não era o fim, apenas o meio. Faz sentido, endereça um problema que ainda persiste hoje, mas não era isso que o filme vinha construindo até então. E nem o que se esperava de um diretor ligado à música, que privilegia os momentos em que a orquestra toca, nos ensaios e nas apresentações, filmando-os, bem como a maior parte das cenas da primeira metade, com planos variados, que ele monta harmonicamente como uma sinfonia.
Rodado em locações autênticas, com figurinos com similar qualidade, Primavera ainda conta com as contagiantes composições de Vivaldi. Apesar de estreante num longa narrativo, Damiano Michieletto está à vontade no uso da gramática cinematográfica. É uma pena que a crítica social e a necessidade de registrar os anseios femininos desviam o filme da música, seu maior potencial por natureza.
___________________________________________
Ficha técnica:
Primavera | 2025 | 110 minutos | Itália e França | Direção: Damiano Michieletto | Roteiro: Damiano Michieletto, Ludovica Rampoldi | Elenco: Michele Riondino, Tecla Insolia, Fabrizia Sacchi, Andrea Pennacchi, Valentina Bellè, Stefano Accorsi.
Distribuição: Imagem Filmes.









