Baseado no livro de Bradford Ropes, Rua 42 chama a atenção por ser um musical amargo produzido no início da era clássica do cinema. E, também, por ser o primeiro em que o coreógrafo Busby Berkeley apresentou seus números musicais surreais.
A história acontece no período da Grande Depressão que se sucedeu à crise da bolsa de Nova York de 1929. O mundo do entretenimento, aqui, não é um ambiente alegre de farra e diversão, mas um lugar de trabalho árduo. O veterano produtor Julian Marsh (Warner Baxter) perdeu tudo o que tinha na crise e está com a saúde comprometida. Portanto, precisa lançar um novo espetáculo, que ele espera que seja seu último, para ganhar dinheiro. Em situação quase parecida está a veterana estrela Dorothy Brock (Bebe Daniels), que aceita participar da nova produção de Marsh. Há um motivo descaradamente sujo para esse combinado: Dorothy se sujeita ao assédio do comerciante cujo investimento é condição obrigatória para o show se viabilizar.
Bastidores extenuante e a ousadia da era pre-code
O processo seletivo de coristas para o show ilustra o ambiente de crise econômica. Uma grande quantidade de candidatas, que estão ali porque precisam do trabalho e não por amor à arte, disputa acirradamente as poucas vagas. Uma delas é a mocinha do filme, Peggy Sawyer (Ruby Keeler), que consegue entrar no último momento com a ajuda do ator Billy Lawler (Dick Powell). Em papel coadjuvante, Ginger Rogers interpreta uma das dançarinas.
Os dois primeiros terços da trama acompanham cinco semanas de ensaios exaustivos. Marsh, estressado porque sabe que não pode se dar ao luxo de ver esse projeto fracassar, exige que todos se dediquem ao máximo. Peggy, exausta e mal alimentada, desmaia durante um dos treinos. Ela chega a ser despejada da pensão onde se hospeda, em uma cena na qual, em segundo plano, vemos outra jovem moradora se despedindo de um amante — um flagrante da ousadia que existia na era pre-code (os anos anteriores à entrada em vigor do Código Hays), entre outros que Rua 42 apresenta, principalmente no assédio e na violência contra as mulheres.
Existe uma linha narrativa na qual os produtores contratam gângsteres para intimidar, e até assassinar, se necessário, o namorado da estrela Dorothy Brock, a fim de evitar o risco de o financiador descobrir o romance e retirar seu investimento. Nessa parte majoritária do filme, quase totalmente dramática, há apenas um número musical: uma sequência tradicional de ensaio cantada por Dorothy.
Os números geométricos e o caleidoscópio de Busby Berkeley
O terço final reserva o suprassumo do longa: os números musicais de Busby Berkeley. Nota-se uma progressão nas três longas sequências, em que cada uma delas se afasta mais da realidade. A primeira, “Shuffle off to Buffalo”, caberia em um palco de teatro, com uma bela construção de cenário que simula um vagão de trem, trazendo uma evidente insinuação sexual lésbica nos leitos.
A segunda, “Young and Healthy”, traz a característica geométrica que mais marcou o trabalho de Berkeley. Os dançarinos deixam a individualidade de lado e obedecem meticulosamente aos passos pensados pelo coreógrafo. Em uma fila de coristas, a câmera atravessa um túnel de pernas até chegar aos rostos dos personagens principais. Do alto, os movimentos sincronizados transformam as pessoas em figuras abstratas, como em um imenso caleidoscópio. Já não há mais conexão nenhuma com um palco de teatro.
A apresentação final é apoteótica. O imenso cenário cria uma Nova York estilizada. A câmera passeia pelo set enquanto dezenas de dançarinos performam em diferentes grupos. Diversas situações simulam a agitação da metrópole, até mesmo um assassinato. Busby Berkeley, genial, não permite que sua fértil imaginação crie um esquete alienado da obra à qual ele pertence.
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Ficha técnica:
Rua 42 | 42nd Street | 1933 | 89 min. | Estados Unidos | Direção: Lloyd Bacon | Roteiro: Rian James, James Seymour | Elenco: Warner Baxter, Bebe Daniels, George Brent, Ruby Keeler, Dick Powell, Ginger Rogers, Una Merkel, Guy Kibbee.
Distribuição: Warner Bros. Pictures.



