Sem Pai, Nem Mãe brinca com a metalinguagem. Não do cinema, mas do livro que Artur, o protagonista vivido por Alexandre Nero, está escrevendo em seu computador. É um personagem com muitas facetas: oficialmente um ator, precisa se virar fazendo comerciais e até comédia de stand-up — e, agora, se arrisca como escritor de ficção. Seu fracasso profissional interfere na relação com sua namorada Vera (papel de Julia Ianina), que voltou a falar com o ex dela, o hoje secretário do meio ambiente Eduardo (Dalton Vigh).
A situação de Artur piora quando ladrões invadem a sua casa e roubam o seu computador, que contém o arquivo com a obra que ele está escrevendo. Ao mesmo tempo em que penosamente reinicia o livro, se arrisca na recuperação do seu aparelho, que agora está na loja de produtos eletrônicos da funkeira Ticiane (Pamella Machado), a namorada do assaltante.
A direção
O diretor André Klotzel possui uma filmografia enxuta. Após a sua estreia com A Marvada Carne (1985) — um dos 100 filmes brasileiros essenciais incluídos no recente livro da Abraccine — lançou apenas três longas, o último em 2010 (Reflexões de um Liquidificador). Então, vale a pena celebrar a estreia de seu novo filme, Sem Pai, Nem Mãe, que chega aos cinemas no dia 19 de novembro.
O enredo em si, como se pode ver, não tem muita novidade. Porém, o seu desenvolvimento está recheado de elementos saborosos. O principal deles envolve a materialização dos personagens do livro em andamento, que são um grupo de jovens revolucionários no tempo da ditadura, os principais interpretados por Manoela Aliperti e Caio Horowicz — como brincadeira, os nomes dos atores aparecem no cartaz de “Procuram-se terroristas”. Além de abrirem o filme numa sequência de assalto a banco que ludibria o espectador, eles ainda interagem com Artur, pressionando o escritor para que dê andamento ao seu trabalho.
O filme também flerta com o universo funk, numa mistura de homenagem com deboche. Ticiane, rodeada de bandidos com fuzis nas mãos, grava um vídeo com uma música com letra maliciosa, rebolando insinuantemente. Num dos momentos mais divertidos, os personagens do livro assistem a esse vídeo e perguntam se essas pessoas são da revolução de Cuba.
Existe algum paralelismo entre as situações do livro e da vida de Artur. O assalto ao banco da obra logo é seguido da invasão à casa de Artur com o subsequente roubo do seu computador. Quando a polícia acua os jovens em um apartamento, o bandido ataca Artur. Nesse momento, a guerrilheira Vivi e a funkeira Tici precisam escolher em quem atirar.
Cinema bem filmado
Nem tudo funciona no filme. Algumas situações servem apenas para ser engraçadas, mas não acrescentam muito à narrativa ou soam forçadas (a vizinha que mobiliza um esquema de segurança e que conhece o assaltante, a festa no bairro etc.). Mas a direção habilidosa de Klotzel não deixa o longa perder a sua fluência. Os enquadramentos ajudam a contar a história e as muitas elipses exercitam o poder de dedução do espectador. O veterano diretor prova também que está antenado com as modernidades, pois o vídeo de funk parece bem autêntico. Sem Pai, Nem Mãe é cinema bem filmado e divertido.
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Ficha técnica:
Sem Pai, Nem Mãe | 2026 | 97 min. | Brasil | Direção: André Klotzel | Roteiro: André Klotzel, José Roberto Torero | Elenco: Alexandre Nero, Manoela Aliperti, Caio Horowicz, Pamella Machado, Paulo Tiefenthaler, Julia Ianina, Dalton Vigh, Rafael Losso, Aramis Trindade.
Distribuição: Brás Filmes.



