Só por Uma Noite incrementa a fórmula da comédia romântica com elementos criativos. Para começar, a história acontece em um cenário fantasioso: há três anos o governo americano baixou um decreto que proíbe o sexo fora do casamento. Mas existe uma exceção: uma vez ao ano, num dia determinado, o sexo entre solteiros está liberado entre 19h e 7h, desde que se use preservativo. Essa regra leva a uma situação caótica que se assemelha à onda de violência da franquia Uma Noite de Crime (The Purge), que tem uma ideia semelhante, mas em relação a 12 horas de crimes liberados. No caso desta comédia romântica, a partir das 19h a cidade vira um caos, com pessoas se pegando em todo lugar. Afinal, aqueles que já estão em um relacionamento estão esperando ansiosamente para finalmente transar com seu parceiro. Já entre os solteiros, há aqueles que querem fazer sexo com várias pessoas nesse dia, e os românticos que querem encontrar alguém para se apaixonar.
É o caso de Allie, a cantora de jingles vivida por Monica Barbaro. Ela começa a noite animada, em companhia de uma amiga. Porém, quando a amiga encontra o seu novo “príncipe” nos primeiros minutos, Allie fica sozinha. Logo fica chateada e vai para casa, desistindo de curtir a tão aguardada noite. Essa atitude derrotista atrapalha a construção de empatia por essa personagem, um obstáculo que o protagonista masculino também possui, em outro sentido.
12 horas malucas
Callum Turner faz esse personagem, que se chama Owen e é dono de uma pizzaria. Ao contrário de Allie, ele namora há uns três anos. Ele planejou um jantar romântico e uma noite especial. Porém, a sua namorada Malika (papel de Maya Hawke) lhe diz que quer ter a experiência de fazer sexo com outra pessoa e combinou isso com um rapaz do prédio onde mora. Claramente, o motivo para a chateação de Owen é bem mais forte do que o de Allie. Mas, o que atrapalha esse personagem de ser um galã clássico é que ele dá uma tremenda vomitada na frente de Allie quando os dois se encontram pela primeira vez. Esse é o motivo para ela desistir dele nesse momento, funcionando como um gatilho cômico. Porém, poderiam ter escolhido um outro pretexto, e não esse que fica na cabeça do espectador até o fim do filme como um contraponto contrário às considerações românticas de Allie em relação a Owen.
Os dois protagonistas passam por uma sucessão frenética de acontecimentos bizarros, lembrando as agruras de Depois de Horas (1985). Na maioria deles, atuam em separado, apesar de os dois se reencontrarem várias vezes. A fórmula rom-com serve de guia para algumas situações. O primeiro encontro, por exemplo, aconteceu com um nada sutil esbarrão na calçada. Na parte final, o esperado beijo demora para se materializar, propositalmente enervando o público. Nos últimos momentos, um dos protagonistas corre contra o tempo pelas ruas para encontrar o seu par antes do fim das 12 horas de sexo permitido.
Além da rom-com
Tudo o que foi relatado até aqui faz parte de uma comédia romântica clássica. A partir dela, o diretor Will Gluck adiciona elementos estranhos à tradição do gênero. Já fizera isso antes, ao colocar piadas e cenas picantes em Todos Menos Você (2023), com bons resultados. Desta vez, consegue ser mais criativo.
As canções românticas, bem clichês (como “A Thousand Miles”, de Vanessa Carlton), ganham uma pegada cômica, pois são versões para jingles com o nome do produto no refrão, cantadas pela personagem de Monica Barbaro. Por outro lado, algumas piadas exploram o humor físico extremo, inclusive com perseguições nas ruas, tendo como gancho o fato de as camisinhas terem se esgotado em todos os pontos de venda e as pessoas brigarem por elas. Alternativamente, Owen tenta substituí-las por uma luva de borracha, com resultados desastrosos. Ainda dentro da comédia sacana, entra em algumas cenas um menino pré-adolescente para lá de desbocado que a colega de quarto de Allie – interpretada por Quintessa Swindell – está cuidando como babá. Ou seja, o filme pode ser visto como uma série de esquetes cômicos, e a maior parte deles funciona.
Dentro do aspecto criatividade, vale lembrar a premissa geral da proibição do sexo fora do casamento. Essa situação é uma crítica velada à tendência conservadora que tem crescido nos últimos anos. A abordagem fantasiosa cabe na ficção científica, pois as pessoas possuem um sensor biológico no pulso que identifica pela cor qual é a situação civil de cada um.
Sobre a escolha de elenco
O filme faz piada com os rostos de Sydney Sweeney e Glen Powell (as estrelas de Todos Menos Você), que aparecem como foto de perfil em uma rede social e em um aplicativo de encontros. O longa também traz outras participações especiais inusitadas, como as de Pete Davidson e Bobby Cannavale nas filmagens que Owen sem querer interrompe.
Porém, no elenco em si, o melhor acerto é a presença de Maya Hawke, sempre carismática. Apesar de sua participação pequena como a namorada de Owen, ela consegue ofuscar Monica Barbaro, cuja primeira aparição no filme desmente seu talento como cantora, precocemente exaltado por viver a Joan Baez em Um Completo Desconhecido (2024). Cantando jingles, ela não alcança os tons altos. Por isso, soa melhor no dueto ao piano de “All Out of Love”, do Air Supply, e quando sobe no palco. Monica Barbaro se recusa a abrir mão de preservar a própria imagem quando o personagem dela e o de Callum Turner provocam um ao outro indicando seus defeitos. No caso dela, apontam o nariz e as pernas (que, na verdade, são qualidades suas). Mas, Allie aponta para as orelhas de abano de Owen, que de fato são grandes.
Na verdade, esse casal de protagonistas só tem charme porque o filme trabalha para que isso aconteça, através da fotografia, dos closes e da música. No entanto, o filme renderia mais com uma escolha melhor de atores. Isso vale também para a escalação de Molly Ringwald, que não combina com o papel da mãe de Owen.
Entre acertos e erros, Só por Uma Noite merece uma avaliação positiva pela criatividade que começa na premissa e se estende na liberdade de arriscar diversas ideias. Deixa a impressão de que o diretor Will Gluck está se aprimorando para alcançar uma obra-prima num breve futuro.
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Ficha técnica:
Só Por Uma Noite | One Night Only | 2026 | 102 min. | Estados Unidos | Direção: Will Gluck | Roteiro: Will Gluck, Travis Braun | Elenco: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, Julia Fox, Molly Ringwald, LeVar Burton, King Princess, Ben Marshall, Ziwe, Este Haim.
Distribuição: Universal Pictures.



