Suçuarana é um road movie da miséria. O filme de Clarissa Camponila e Sérgio Borges acompanha Dora (Sinara Teles), que decide sair da região de mineração onde o que ganha mal lhe dá condições para sobreviver. Vai, então, em busca do Vale de Suçuarana, nome anotado numa antiga fotografia de sua mãe.
Parte com uma quantia insuficiente para essa viagem, por isso alterna meios de transporte pagos e caronas. Pelos caminhos, em locações marcadas pelo naturalismo, o filme abre espaço para o fantástico na recorrente participação do cachorro que Dora encontra (ou vice-versa) e apelida de Encrenca. Ela tenta se livrar dele em mais de uma ocasião. O que poderia constituir gatilhos emocionais apelativos, na verdade serve para ressaltar a dureza da protagonista, que permanece indiferente a essas despedidas.
Encrenca, por sua vez, parece possuir algum poder mágico, pois sempre consegue reencontrar Dora em diferentes etapas de sua jornada. Numa delas, o cão ajuda sua reticente dona a escapar de um estupro. Talvez o cão simbolize a motivação de Dora para ir a Suçuarana, várias vezes abalada pelo que ela encontra no caminho, principalmente as inúmeras pessoas que reclamam da dura vida que levam. Algumas delas, como a cobradora de ônibus, do nada começam a contar os seus problemas. No fim, Dora não muda seu destino, mas muda a si mesma, a ponto de valorizar o animal que nunca a abandonou.
As imagens contam melhor
A dupla de diretores, pela primeira vez reunida, mescla a jornada ficcional da protagonista mulher, encontrada em Canção de Longe (2022), de Campolina, com o documental de O Céu Sobre os Outros (2010) e Lutar Lutar Lutar (2021), de Borges. Planos gerais, com a protagonista apequenada na imensidão da natureza, reforçam a insignificância de uma pessoa mudar o ambiente que a cerca. Quando a câmera se aproxima dos personagens, resgata a humanidade delas, preservada em registros próximos do documentário ao captar as conversas dos grupos ao redor da fogueira, durante o jogo de dominó ou as suas danças.
Acima de tudo, a força de Suçuarana está nas imagens. As lentes de Clarissa Campolina e Sérgio Borges captam os efeitos desoladores da exploração mineral, que exaure os recursos da terra e a vida dos trabalhadores, igualmente explorados. Os diálogos, no entanto, alternam entre acessórios e dispensáveis. Entre estes últimos, um exemplo claro é Dora contando para uma colega como Encrenca a salvou do estupro, evento que o espectador já viu na tela, portanto desnecessário repetir nessa cena. No geral, as conversas pouco interessam, e esse é o problema do filme. É melhor ignorá-las e se concentrar nas imagens, que revelam um ciclo de pobreza sem saída em torno da mineração, de onde Dora tenta sair, mas não consegue. Nem com a ajuda de Encrenca.
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Ficha técnica:
Suçuarana | 2024 | 85 min. | Brasil | Direção: Clarissa Campolina, Sérgio Borges | Roteiro: Clarissa Campolina, Rodrigo Oliveira | Elenco: Sinara Teles, Carlos Francisco, Tony Stark, Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia de Ouro Preto, Hélio Ricardo, Andréia Quaresma, Elba Rocha, Rafael Botero, Docy Moreira, Kelly Crifer, Amora Ferreira Giorni, Lenine Martins.
Distribuição: Embaúba Filmes.



