O novo filme Superman (2025) é o Superman de James Gunn, que assina como diretor e roteirista. Isso implica em seus prós e contras, mas também na segurança de saber o que encontraremos. Para isso, devemos considerar que este Gunn está mais para aquele de Guardiões da Galáxia do que para O Esquadrão Suicida e a série Pacificador, pois esses últimos visam um público menos juvenil. O público-alvo, afinal, depende dos protagonistas e o Superman sempre foi o modelo da integridade.
Antes de entrarmos nas características do cinema de James Gunn, cabe ressaltar a intenção de evocar a nostalgia. Isso surge logo na abertura, com o logo da DC Studios, resgatando a memória da “Detective Comics”. Aliás, este é o primeiro filme dessa produtora, que conta com James Gunn e Peter Safran como CEOs. Acompanhando o logo, o famoso tema que John Williams compôs para Superman: O Filme (1978). Em seguida, a ilustração clássica do super-herói, com o shorts vermelho sobre o collant azul, figurino que o Homem de Aço vivido por Henry Cavill abandonara e que David Corenswet volta a adotar sem receio de parecer ridículo.
Voltando a James Gunn, Superman (2025) entrega o que se espera de um filme sobre super-heróis (aqui chamados de meta-humanos). Ou seja, muita ação, ambientes fantásticos com uma origem científica, muita comédia (desta vez, sem piadas sujas), alguma violência, momentos de fofura (no lugar do bebê Groot entra Krypto, o super-cão) e referências musicais (Clark Kent/Superman tenta convencer Lois Lane que ele curte punk rock). Sobre a violência, a maior, que parece desconectada do resto do filme, é uma tortura com roleta russa. Já a melhor filmada fica na elipse, quando o ato brutal dá lugar a um remédio efervescente cai num copo de água.
A ação e o vilão
Gunn nunca foi um grande diretor de cenas de ação. O fato de optar por inserir muito humor em seus filmes costuma prejudicar esses trechos. Neste filme, é o que acontece quando surge um monstro que parece um Stitch do tamanho de um Godzilla, atacando Metrópolis. Ou nos combates que envolvem o trio (que parece deboche) formado por Lanterna Verde (Nathan Fillion), Sr, Incrível (Edi Gathegi) e Mulher-Gavião (Isabela Merced). Mas, a luta entre Superman contra A Engenheira (María Gabriela de Faría), com seus nanopoderes, e O Martelo, com força equivalente ao do Homem de Aço, consegue ser emocionante.
O vilão do filme é novamente o arqui-inimigo Lex Luthor. Apesar da acertada escolha do ator que o interpreta, Nicholas Hoult, esse personagem tem seus problemas. A ideia de sua mente genial criar uma cópia do Superman que ele comanda à distância funciona. Porém, toda a viajante concepção do universo compacto parece exagerada, um capricho desnecessário para James Gunn levar para a tela cenários inimaginados que vão além do que caberia num mundo real, por mais fantasioso que seja a trama que envolve super-heróis. Além disso, o enredo empobrece o vilão ao atribuir-lhe duas motivações para destruir o Superman, uma material (a sua ganância), a outra psicológica (uma inveja doentia).
Novidades
O roteiro traz algumas novidades. O Superman tem uma casa/laboratório escondido na Antártida, onde ele possui robôs que cuidam do local e do próprio super-herói, quando gravemente ferido. Ali também está, temporariamente, o cão Krypto. Acima de tudo, ficam nesse lugar as memórias do passado do Superman, inclusive o vídeo que seus pais biológicos gravaram para ele antes de enviá-lo para a Terra. Outra novidade deste filme é que a kriptonita enfraquece o Superman como se fosse uma alergia, deixando manchas em seu corpo.
Ainda sobre a mensagem dos pais biológicos, o enredo revela um segredo chocante. E que, com inteligência, reforça a mensagem do filme, por sua vez ligada ao bom mocismo do Superman, que chega a ser ingênuo por acreditar que as pessoas são boas. Assim, ele agradará o espectador juvenil ao demonstrar que você não precisa ser o que seus pais querem que você seja. Ademais, o alienígena Superman mostra que é mais humano do que o terráqueo Lex Luthor. Além disso, o filme afirma que os pais adotivos valem mais que os biológicos (são imagens deles que no final acalmam Superman).
Temas batidos
Por outro lado, o roteiro também traz temas batidos. Como acontece com o Homem-Aranha, Batman e outros super-heróis, por algum motivo o povo se vira contra eles. O que acontece aqui com o Superman vem das artimanhas de Lex Luthor, e da mensagem dos seus pais. Primeiro, Luthor se aproveita do intervencionismo à revelia de Superman em um conflito entre dois países do Oriente Médio. Seria esta uma crítica aos Estados Unidos? Mais certo é que os macacos produzindo comentários nas redes sociais são um claro comentário depreciativo a esse meio.
Outro recurso batido, mas que sempre anima os fãs dos super-heróis, é a participação surpresa de outros personagens. Dois deles se destacam, principalmente a última, apesar de aparecer em estado de embriaguez, como motivo de piada.
Já aquele apelo dramático clichê da individualização da vítima sendo salva pelo super-herói no último instante, em meio à destruição generalizada, não só está presente, como aparece repetidas vezes. Um uso exagerado que descamba numa paródia indesejada.
Entre o apelativo e a emoção legítima
Já a inclusão do cão Krypto, que chamou a atenção num dos teasers de divulgação, atrapalha a narrativa. Além dos óbvios e apelativos momentos de fofura, o cão (que não é do Superman) não é nada obediente, portanto, serve como motivo cômico repetidas vezes. O cachorro só é útil para o herói na primeira e numa das últimas cenas.
Como ponto alto, o romance entre Clark Kent/Superman e Lois Lane (Rachel Brosnahan) esquenta as telas como aconteceu no filme de 1978 (com Christopher Reeve e Margot Kidder nos papeis). Desta vez, eles já namoram em segredo, e Lois sabe que Kent é o Superman. No meio do enredo, eles brigam e a relação fica estremecida. Por isso, o beijo no final surge inesperadamente, como num improviso, quando Lois estava se afastando e volta de súbito. E, como uma homenagem ao filme com os finados Reeve e Kidder, Lois e Clark flutuam enquanto se beijam. Em meio a tanta ação, variadas gracinhas e participações especiais para agradar, é essa cena romântica que se destaca neste Superman claramente com a cara de James Gunn.
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Ficha técnica:
Superman | 2025 | 129 min. | EUA | Direção: James Gunn | Roteiro: James Gunn | Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Isabela Merced, Nathan Fillion, Nicholas Hoult, Alan Tudyk, Milly Alcock, Skyler Gisondo, Frank Grillo, Anthony Carrigan, Mikaela Hoover.
Distribuição: Warner Bros. Pictures.



