Incrivelmente consciente aos 92 anos, Kim Novak encerra o documentário Um Corpo que Cai, por Kim Novak com uma declaração talvez nunca vista num filme do gênero. Com muita honestidade, ela confessa ao diretor Alexandre O. Philippe que o filme fez um bem imenso para ela, porque a fez se apreciar melhor. A frase resume tudo o que o documentário revelou, em especial a faceta por trás do mito da sex symbol que Hollywood quis fazer dela, mas que ela nunca aceitou. Não quis seguir o rumo trágico de suas colegas, como Marilyn Monroe, a quem ela cita.
Apesar de se sujeitar a alguns papéis que a sexualizavam, sob as controladoras ordens do produtor Harry Cohn, Kim Novak se diferenciava por ser extremamente inteligente (ela não afirma isso, mas o documentário deixa evidente). Usou os filmes a seu favor, e pode sair da carreira quando decidiu sair, repetindo o modelo de sua ídola Greta Garbo.
Questionamentos
Mas, por conta dessa sua qualidade, sempre se questionou muito. E sofreu com autoavaliações severas demais. Nos depoimentos, colhidos em 2024, ela mergulha nas influências da família – da avó à frente de seu tempo, do pai fechado que não fez o que quis na vida, e da mãe de espírito mais livre. Essa base serviu para ela sair de sua concha através da atuação, sem cair no deslumbramento da fama. Além disso, encontrou na pintura uma nova forma de se expressar artisticamente. No filme, aparecem algumas de suas telas e um vídeo antigo dela trabalhando numa pintura na parede de sua própria casa. O seu estilo etéreo marca a abertura do documentário, quando a câmera desliza como um espírito entrando na casa de campo da atriz.
Kim Novak comenta sobre o impacto imediato do papel de parede no restaurante do filme Um Corpo que Cai, muito similar ao de sua casa na infância. O papel duplo de Madeleine e Judy nesse filme de Hitchcock a marcou profundamente, pois reverberou em seus sentimentos antagônicos por causa do sucesso em Hollywood. O diretor Alexandre O. Philippe foi extremamente espirituoso nas escolhas de trechos de filmes que ilustram os depoimentos de Novak, durante todo o seu filme. No caso específico de Um Corpo que Cai, usa uma tela dividida para simbolizar esse sentimento de dualidade citado pela atriz.
Uma sequência muito especial do documentário evoca o suspense hitchcockiano quando Kim Nova vai abrir a caixa onde está guardado há décadas aquele terninho cinza de Madeleine/Judy. Cenas de outros filmes de Hitchcock com outras atrizes se preparando para abrir uma porta e se deparar com uma surpresa fazem parte dessa montagem.
Alexandre O. Philippe
Realizador de documentários que dissecam a história do cinema, Alexandre O. Philippe consegue em Um Corpo que Cai, por Kim Novak alcançar um resultado que vai além da técnica. Tocou a entrevistada com um poder de liberação que a fez soltar aquela declaração maravilhosa com total espontaneidade.
Philippe participou de duas edições da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com o curta Abandono (Left, 2006) e o longa Memory – As Origens de Alien (Memory: The Origins of Alien, 2019). Um Corpo que Cai, por Kim Novak marca o seu retorno ao evento, na competição Perspectiva Internacional da 49ª Mostra.
___________________________________________
Ficha técnica:
Um Corpo que Cai, por Kim Novak | Kim Novak’s Vertigo | 2025 | EUA | 76 min. | Direção: Alexandre O. Philippe | Roteiro: Alexandre O. Philippe | Com Kim Novak, Alexandre O. Philippe.



