O ator Harris Dickinson estreia na direção de longas com Urchin, um filme que ousa contar a sua narrativa investindo em segmentos abstratos.
O título, “Urchin”, significa ouriço em português, mas também é a gíria para um garoto de rua. E se refere ao protagonista, Mike (Frank Dillane), um rapaz que mora nas ruas de Londres. Ao acompanhar alguns dias de sua vida, o filme permite que o espectador compreenda os motivos que o colocam num ciclo autodestrutivo do qual nunca consegue sair.
Mike possui um caráter fraco, que sempre o leva a tomar as decisões erradas. Na primeira parte da trama, ele perambula pelas ruas pedindo esmola. Quando um homem se oferece a ajudá-lo comprando comida, Mike se aproveita da oportunidade, agride-o e lhe rouba o seu relógio. Acaba preso, e na detenção, surge a primeira sequência abstrata no filme. Enquanto toma banho, a câmera acompanha a água que cai no ralo, entra no cano escuro e Mike ressurge numa caverna.
Duas oportunidades de empregos e amizades surgem para o protagonista. Em ambas, ele quase engata uma vida honesta, mas estraga tudo com seu temperamento agressivo. Repete o padrão de seu comportamento com o homem que lhe quis ajudar. Como uma das novas amigas lhe diz, Mike não assume o controle de sua vida, se deixa levar pelas circunstâncias. No fundo, prefere que alguém lhe diga o que fazer, por isso se sente bem ouvindo áudios de meditação, que servem para ele como uma autoajuda. Pelo mesmo motivo, se vicia facilmente nas drogas, pois ele não possui a mínima força de vontade própria para sair dos buracos que ele acaba se metendo.
Danças e o surreal
Talvez influenciado pelo cinema francês contemporâneo, o diretor Harris Dickinson, que interpreta Nathan, o amigo de rua de Mike que consegue se endireitar, insere três cenas de dança em Urchin. Representam momentos de felicidade para Mike. A primeira com ele sóbrio, as demais já com efeito de drogas, mas o mais relevante é que representam a zona de conforto do protagonista. Ou seja, quando ele pode se jogar sem pensar em nada.
Acima de tudo, mais fortes que as danças são as representações simbólicas. Principalmente, a sequência onírica que fecha o filme. Nela, quebram-se as barreiras da racionalidade para mergulhar fundo no surreal. Depois de apresentar claramente como se comporta Mike, sem pedir que o espectador sinta empatia por ele, a metáfora, mesmo assim tão surreal, não deixa nenhuma dúvida a respeito do que representa. É uma bela adição à narrativa clássica.
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Ficha técnica:
Urchin | 2025 | Reino Unido | 99 min. | Direção: Harris Dickinson | Roteiro: Harris Dickinson | Elenco: Frank Dillane, Megan Northam, Amr Waked, Karyna Khymchuk, Shonagh Marie, Harris Dickinson.



