Viagem Sem Retorno (Over Your Dead Body), terceiro longa de Jorma Taccone, estica demais os limites da comédia sombria. A refilmagem americana do sueco The Trip (I onde dager, 2021), de Tommy Wirkola, ultrapassa o tolerável ao brincar com o estupro masculino. Esse ato abjeto que marcou o cinema em Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972), de John Boorman, de uma forma série e chocante, agora vira piada de mau gosto neste filme que mistura ação e violência extrema com humor ácido.
A esquizofrenia que resulta de suas transições entre gêneros (drama, comédia, ação, terror) marca também seu enredo. A primeira parte parece uma versão de Sr. & Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith, 2005), de Doug Liman, mas com pessoas comuns como marido e mulher que querem se matar. Nesse outro filme, Brad Pitt e Angelina Jolie vivem assassinos profissionais contratados para matar um ao outro. Já no longa desta crítica, Dan (Jason Siegel) e Lisa (Samara Weaving) são, respectivamente, diretor de cinema e atriz de teatro que querem dar um fim radical a um casamento fracassado. Releva-se a opção mais civilizada do divórcio, porque senão não haveria filme.
A viagem sem volta
Dan propõe que o casal viaje para a casa de campo deles. Ele conta às poucas pessoas que conhece que Lisa pretende fazer uma trilha perigosa sozinha, pois assim ele prepara o terreno para depois contar que a esposa morreu num acidente, já que ele pretende assassiná-la. Mal sabe ele que ela também tem planos semelhantes. Eles discutem entre si o tempo todo, deixando pouco tempo para a comédia. É verdade que eles não possuem a habilidade nem a coragem para executarem seus planos, mas o filme evita que as suas tentativas sejam desastrosas a ponto de virarem comédia. A única cena engraçada é aquela em que os dois disputam quem seria mais convincente ao mentir sobre a morte do parceiro.
Essa premissa se esgota rapidamente e o filme inicia uma narrativa diferente quando três fugitivos da prisão aparecem na casa. Os detentos Peter (Timothy Olyphant) e Todd (Keith Jardine) recebem a ajuda da carcereira Allegra (Juliette Lewis), esta iludida pelo pretenso namorado Peter, para escaparem. A partir desse momento, Dan e Lisa precisam se unir para sobreviverem a esses bandidos. A violência, que já surgira antes, se potencializa até atingir o nível de filmes de terror slasher com muito gore. E aí se inclui a desprezível cena em que Todd tenta estuprar Dan, na frente de todos.
A direção
O diretor Jorma Taccone tenta parecer mais criativo ao inserir algumas sequências que regridem alguns dias para explicar como se chegou àquela situação. Por isso, quando Lisa diz que também planejava um assassinato, o filme retorna alguns dias para mostrá-la conversando sobre isso com a amiga. Da mesma forma, uma sequência volta no tempo para revelar como os fugitivos invadiram a casa. Mas, esse recurso não acrescenta muito em relação à narrativa e nem deixa o filme mais bacana.
A violência gratuita explode na tela, com membros decepados e cabeças explodidas, numa tentativa de extrair graça do exagero. No entanto, a comédia que funciona é aquela mais escrachadas, como as esdrúxulas cenas com o pai de Dan em um carro turbinado com luzes de led e música eletrônica em alto volume. E algumas chacotas com os clichês de Hollywood, como o vomitar de nervoso, e o desfecho com uma versão farsante do que aconteceu.
Viagem Sem Retorno sofre por buscar a qualquer custo ser uma comédia sombria, caindo por isso no mau gosto. Como as cenas de ação e gore são bem realizadas, fica uma vontade imensa de ver esse mesmo material sem o viés do humor.
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Ficha técnica:
Viagem Sem Retorno | Over Your Dead Body | 2026 | 105 min. | Estados Unidos | Direção: Jorma Taccone | Roteiro: Nick Kocher, Brian McElhaney | Elenco: Jason Segel, Samara Weaving, Timothy Olyphant, Juliette Lewis, Paul Guilfoyle, Keith Jardine.
Distribuição: Amazon Prime Video.







