A comédia é o gênero que mais tem dificuldades para agradar espectadores de diferentes países. As especificidades culturais, os cenários políticos locais, e até a dificuldade de tradução do idioma estão entre as principais causas desse fenômeno. 72 Horas em Miami, novo filme de comédia da Netflix, tem esse problema. Veículo para Kevin Hart e comediantes do Saturday Night Live (Marcello Hernández e Ben Marshall), seu humor não funciona para o público brasileiro. Aliás, assim como aconteceria com alguma produção brasileira protagonizada por comediantes de programas de televisão que fosse exportada para os Estados Unidos.
As primeiras cenas de 72 Horas em Miami já farão vários espectadores brasileiros desistirem de continuar a assistir. Elas trazem um Kevin Hart absolutamente frenético, falando sem parar, para construir seu personagem, o bem-sucedido marqueteiro Joe. Ele está ansioso pela promoção a diretor de marketing na empresa de bebidas alcoólicas onde trabalha, porém, está sendo questionado por ser velho demais (segundo ele, está na casa dos 40), e desconectado com a Geração Z. Portanto, desta vez, Kevin Hart vira motivo de piada não tanto por ser baixinho, mas principalmente por ser velho.
Por engano, quatro jovens que estão planejando uma viagem de despedida de solteiro em Miami incluem Joe no grupo deles do whatsapp. Pensando em se atualizar para não perder a profissão, Joe se oferece para pagar as despesas se puder ir junto.
Comédia de personagem e humor físico
Parte das piadas surge de situações estáticas, com os cinco personagens reunidos trocando farpas que surgem da diferença geracional. Considerando a origem desses comediantes, não surpreende que caiam no humor grosseiro. É o que eles fazem de melhor, e uma ou outra tirada funciona. Mas, algumas tolices apostam num tom infantilizado que não combina com isso. Por exemplo, a entrada em cena de Kam Patterson, no papel de Freshman, perseguido por um cachorro, com batuques de bateria e apitos soando ao fundo que parecem abertura de samba-enredo.
A outra parte das piadas aposta no humor físico. Algumas delas têm origem em algum acontecimento rotineiro. Seguindo antigos hábitos, Joe toma duas garrafas de Engov antes de ir para a farra. Mas, no caminho, vomita tudo, o que leva a uma confusão que envolve até a polícia. No dia seguinte, eles viram vítimas do golpe de Boa Noite, Cinderela perpetrado por uma quadrilha de mulheres.
Ao invés de insistir nesse tipo de comédia, o filme prefere imitar a série de filmes Se Beber, Não Case! (2009 a 2013) e envolve os protagonistas em confrontos perigosos com mafiosos. Mas, sem o ingrediente mais genial dos filmes de Todd Phillips, que era apresentar os personagens em uma situação absurda para depois mostrar os eventos que a provocaram. Em 72 Horas em Miami, a intersecção com os bandidos acontece por coincidências tolas – desde a casa que alugam no AirBnb, que pertence a traficantes, até o roubo de drogas por acaso. Os eventos parecem forçados e sem graça nenhuma.
Vale a pena ver?
A direção é de Tim Story, um cineasta que tem uma longa parceria com Kevin Hart, mas que costuma embarcar em projetos ruins, como: Táxi (2004), Quarteto Fantástico (2005) e Tom & Jerry, o Filme (2021).
No lugar de 72 Horas em Miami, é melhor o público brasileiro apostar em alguma produção nacional com comediantes daqui. Pelo menos, não ficará sem entender referências americanas como a participação do humorista Katt Williams, o desafeto de Kevin Hart na vida real que briga com ele na cena no corredor do iate.
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Ficha técnica:
72 Horas em Miami | 72 Hours | 2026 | 105 min. | Estados Unidos | Direção: Tim Story | Roteiro: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Kevin Burrows, Matt Mider | Elenco: Kevin Hart, Marcello Hernández, Mason Gooding, Teyana Taylor, Kam Patterson, Ben Marshall, Mike Epps, Andy Garcia.
Distribuição: Netflix.









