Com direção do experiente Guillaume Nicloux, A Divina Sarah Bernhardt conta a história da atriz de teatro francesa que foi pioneira em conquistar fama mundial. O filme se concentra em sua vida pessoal, sem se deter em suas apresentações no palco. Essa escolha dos realizadores, provavelmente, surge da dimensão quase mitológica do talento da atriz, o que poderia provocar comparações ingratas, em especial para Sandrine Kiberlain, que a interpreta no filme – por sinal, numa atuação impressionante.
Aproximando o caráter rebelde de Sarah Bernhardt (1844-1923), o diretor Guillaume Niclooux adota uma cronologia inversa nesta cinebiografia. Durante os créditos iniciais, apresenta fotos e registros do cortejo fúnebre da atriz acompanhado por milhares de pessoas. Tal procedimento foge do padrão, principalmente em relação às fotos, pois provocam a questão da similaridade da biografada com o visual da personagem no filme.
E, logo em seguida, a narrativa se inicia com um dos momentos mais dolorosos da vida de Sarah Bernhardt. É quando, em 1915, ela precisa amputar uma de suas pernas. A princípio, ela se mostra corajosa na frente de amigos, mas diante de Sacha Guitry revela seus temores. Sacha, o importante diretor francês, é filho de Lucien Guitry, com quem Sarah manteve um longevo relacionamento amoroso, e por isso considerava-a como sua segunda mãe. Ele propõe fazer um filme com ela, o que dá vazão às lembranças que movimentam o enredo.
A Belle Époque
A trama se concentra em 1896, no auge da atriz, que foi uma das figuras proeminentes da Belle Époque de Paris. Sarah Bernhardt teve diversos amantes (“dez para cada dedo de sua mão”, diz ela) e o filme transita entre várias festas, jantares e reuniões mais íntimas, regadas a muita bebida e drogas. Na tela, desfilam personagens históricos que faziam parte desse grupo, como Edmond Ronstand, Émile Zola e Victor Hugo, e outros que Sarah conheceu e que eram seus admiradores, como Sigmund Freud e Oscar Wilde.
Esta cinebiografia não se limita a vangloriar a figura que retrata. Como inevitável consequência de seus excessos, Sarah Bernhardt é extremante dramática no seu relacionamento de altos e baixos com Lucien Guitry, e cruel com colegas de palco para garantir a qualidade das encenações. Além disso, o filme mostra como Sarah era submissa às exigências de seu único filho de sangue Maurice. Apesar de ele estar sempre endividado por conta dos jogos de azar, Sarah não lhe negava ajuda financeira.
O filme pode criar confusão no espectador em relação a esses dois personagens – Sacha, o filho por afeição, e Maurice, o filho de sangue. Os dois aparecem quando têm cerca de 30 anos – Sacha no tempo atual (1915) e Maurice no passado (1896) – e são interpretados por atores parecidos: Arthur Mazet (como Sacha) e Grégoire Leprince-Ringuet (como Maurice). Sacha, por fim, se sobrepõe como personagem mais importante entre eles, ao fechar o filme com sua narração. Nela, ele explica o motivo que gerou o atrito com o seu pai, e ainda relata que filmou Sarah em seu filme Ceux de chez nous (1915).
Os excessos e a intimidade
A Divina Sarah Bernhardt, assim, humaniza a protagonista no período do fim de sua vida, antes e depois de retratar os excessos da sua fase no auge. A narrativa, ao levar para as telas a vida louca da atriz, fica um pouco confusa, mas não a ponto de impedir a compreensão de sua valiosa trajetória.
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Ficha técnica:
A Divina Sarah Bernhardt | Sarah Bernhardt, La Divine | 2024 | França | 98 min. | Direção: Guillaume Nicloux | Roteiro: Nathalie Leuthreau | Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Etienne, Mathilde Ollivier, Laurent Stocker, Grégoire Leprince-Ringuet, Clément Hervieu-Léger, Sébastien Pouderoux, Sylvain Creuzevault, Arthur Mazet, Arthur Igual.
Direção: Imovision.









