Após escrever e dirigir o surpreendente Noites Brutais (Barbarian, 2022), Zach Cregger confirma em A Hora do Mal (Weapons) que é um dos mais promissores cineastas de terror da atualidade.
Cregger volta a retrabalhar os elementos característicos do gênero, quebrando as expectativas. Desta vez, não abre mão dos jump scares, ausentes do filme anterior, mas evita o seu uso em trechos óbvios, como quando uma mulher sai de uma casa sinistra, movendo-se estranhamente com uma tesoura na mão em direção da protagonista Justine Gandy (Julia Garner). Da mesma forma, inicia um pesadelo horrível, e engana o espectador ao deixar o susto para o pesadelo dentro do pesadelo.
Além disso, o filme brinca com os tons. Começa inesperadamente leve, com uma narração em voz infantil, uma bela música como trilha, e as crianças que saem correndo de suas casas como se isso representasse algum movimento cândido, e não o trágico desaparecimento que movimenta a trama.
Mistério em capítulos
Em uma pequena cidade do interior, dezessete dos dezoito alunos de terceiro ano de uma escola somem exatamente às 2h17 da madrugada. Os pais das crianças logo querem explicações da professora Justine, pois esse fenômeno só aconteceu com a sua turma. O diretor Marcus (Benedict Wong) a protege, mas a postura da professora não é absolutamente imaculada. Ela bebe demais, tem um caso com um policial casado, e ainda tenta investigar por conta própria o menino Alex Lilly (Cary Christopher), o único da turma que não desapareceu.
A estrutura narrativa de A Hora do Mal preserva o mistério e mantém o espectador intrigado. Ao acompanhar o ponto e vista de Justine, parece que a revelação aparecerá rapidamente demais. Porém, por se segmentar em vários capítulos, cada um com a perspectiva de um personagem, o roteiro sempre retrocede no tempo para interligar os acontecimentos. A sequência dos relatos é perfeita, porque cada personagem sabe mais que os anteriores, e pode, assim, acrescentar mais informações sobre o que aconteceu. O público, por isso, espera com ansiedade o capítulo com o diretor Marcus, depois que ele aparece totalmente transformado, em um surto similar ao das crianças.
O filme resgata uma figura icônica do terror, materializada de forma assustadora pela atriz Amy Madigan. O terror mergulha no sobrenatural, causando calafrios com a trilha musical composta por Hays Holladay, Ryan Holladay e o próprio Zach Cregger, repleta de sons arrepiantes. Embora o roteiro não esclareça todos os detalhes sobre os poderes fantásticos (como as crianças fortalecem a tia doente de Alex?), as regras mais importantes seguem uma lógica que valida a conclusão.
Humor bizarro
Voltando a comentar sobre os tons do filme, Zach Cregger arrisca um humor bizarro na parte final. As crianças, ainda em transe e usadas como armas (o título original é “Weapons”), perseguem a malfeitora durante um tempo alongado, e provocam situações inusitadas – invadem casas, chamam a atenção das pessoas nas ruas, que até soltam comentários voltados para esse humor. Apesar dos risos que podem surgir na plateia, a ação principal na tela é horripilantemente gore – aliás, a violência explícita permeia todo o longa. Fora isso, as crianças afetadas sofrem consequências psicológicas duradouras, como explica a narração. Portanto, o alívio cômico é mais um sorriso nervoso do que um desafogo.
Com dois filmes de terror incríveis, Noites Brutais e A Hora do Mal, Zach Cregger desponta como uma grande promessa dentro desse gênero. Se você ainda não o conhece, vale a pena ficar de olho.
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Ficha técnica:
A Hora do Mal | Weapons | 2025 | EUA | Direção: Zach Cregger | Roteiro: Zach Cregger | Elenco: Josh Brolin, Julia Garner, Alden Ehrenreich, Austin Abrams, Cary Christopher, Benedict Wong, Amy Madigan, Callie Schuttera.
Distribuição: Warner Bros.



