Em Barba Ensopada de Sangue, nada parece fazer sentido. Não é apenas o roteiro baseado no livro de Daniel Galera, pois isso poderia ser compensado, pelo menos para o público cinéfilo, com uma boa direção. Mas, o diretor Aly Muritiba, que já perdeu o título de talento promissor conquistado com seu Ferrugem (2018), faz escolhas que não se justificam ou parecem truques fáceis. E os personagens se comportam tão insensatamente que impossibilitam que tenham qualquer consistência.
Gabriel Leone interpreta Gabriel (no livro, o protagonista não tem nome, então, usar o nome do ator é uma das más escolhas do filme). Um pouco antes de morrer, seu pai lhe conta sobre a misteriosa morte do avô. E decide morar na pequena casa do avô na praia da cidadezinha chamada Armação, em Santa Catarina, onde o avô morreu de maneira violenta.
Alguns moradores locais implicam com Gabriel, pois o veem como uma extensão do avô, que era considerado uma pessoa ruim. Envolver-se com Jasmin (Thainá Duarte) só complica ainda mais a sua situação. Logo, ele caminha para o mesmo destino trágico de seu avô.
Personagens
O filme nunca explicita (ou demora para fazer isso, se formos menos severos) o motivo que faz Gabriel continuar em Armação. A casa não é grande coisa, e mesmo que fosse ele poderia vendê-la. Os moradores o ameaçam para ele ir embora. Até a nova namorada quer fugir dali, de preferência com ele. Esse incômodo fica na cabeça do espectador o tempo todo, e fica mais forte conforme o perigo aumenta para Gabriel. E é um estorvo facilmente evitável, pois bastaria o protagonista admitir sua obsessão por descobrir o que aconteceu com o avô. Isso talvez explicasse por que ele queima os barcos dos pescadores, já que isso só vai atiçar a ira dos seus agressores.
Mas outros fatores atrapalham a construção do personagem Gabriel. Ele não perdoa o irmão por se casar com sua ex-namorada. E tem um problema que impede que ele reconheça o rosto das pessoas. Características importantes que poderiam acrescentar mais camadas ao protagonista. Porém, que não são aproveitadas neste filme.
Jasmin também parece uma personagem indefinida. Não dá para entender por que só agora ela se revolta com a comunidade e quer fugir dali. Menos ainda por que ela partiria sem avisar ninguém – nem mesmo Gabriel.
Direção
Contudo, o mais grave é o trabalho da direção. A cena que abre o filme – a conversa entre Gabriel e o pai – é muito feia sob esse aspecto. Filmada em plano único, mas interrompida por uma cartela desnecessária, tem um enquadramento mal pensado, que mantém o protagonista de costas e o pai de frente em segundo plano. A câmera está na mão, balança um pouco para seguir a falsa regra de que toda cena tensa precisa desse artifício. O pai está mal iluminado e não se vê seu rosto nitidamente. A câmera se aproxima dele, movimento que antecipa a frase bombástica que encerra esse trecho que deixa uma predisposição ruim para assistir ao restante do filme.
As incursões no cinema fantástico são forçadas. Em sonho, Gabriel se vê pelado (por quê?) diante de uma baleia, simbolizando a situação em que ele logo estará – a praia onde está a casa que era do avô era um matadouro de baleias. Quando Gabriel chega na casa, a trilha musical sinistra força uma tensão inexistente, porque não há nada ali que a justifique.
O uso de cenas noturnas também parece artificial. Fica estranho, por exemplo, o velho vizinho pescador aparecer na praia à noite para conversar com Gabriel. Mais danosa ainda é a visita noturna da ex-namorada, e que pode dar outra impressão a respeito da intenção dela. Aparentemente, o diretor escolheu filmar nesse período apenas para tentar obter uma fotografia mais bonita.
No geral, as escolhas não são muito cinematográficas. O diretor prefere usar os diálogos a uma solução visual. Por exemplo, a revelação do motivo que fez Gabriel se afastar do irmão surge no diálogo com a ex-namorada, num trecho que parece novela das oito.
Carreira irregular
Aly Muritiba está construindo uma filmografia irregular. Entre ótimos filmes – Ferrugem e Deserto Particular (2021) – surgem outros bem fracos – Jesus Kid (2021) e este Barba Ensopada de Sangue.
Baseado no romance homônimo do escritor brasileiro Daniel Galera.
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Ficha técnica:
Barba Ensopada de Sangue | 2024 | 108 min. | Brasil | Direção: Aly Muritiba | Roteiro: Aly Muritiba, Jessica Candal | Elenco: Gabriel Leone, Ricardo Blat, Ana Hartmann, Thainá Duarte, Ivo Müller, Otavio Linhares.
Distribuição: O2 Play.
Trailer: assista aqui.



