Chega aos cinemas, com atraso e pouca divulgação, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, o novo filme de Gore Verbinski. O cineasta americano dirigiu sucessos como O Chamado (2002), Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003) e suas sequências de 2006 e 2007. Porém, há dez anos, desde A Cura (2016), não lançava nenhum filme.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, escrito por Matthew Robinson, é uma crítica ácida aos efeitos nocivos da tecnologia, especialmente as viciantes redes sociais no celular. Em seu enredo maluco, Sam Rockwell interpreta um homem que vem do futuro para interromper a evolução acelerada da IA enquanto ainda dá tempo. Para isso, adota uma estratégia radical. Invade um diner e ameaça explodir uma bomba que está amarrada ao redor do seu corpo se não conseguir um grupo de voluntários para ajudar na sua missão.
Como em Feitiço do Tempo (1993), citado no filme, essa já é a 117ª vez que esse homem faz isso. Portanto, já conhece os clientes que estão ali e prefere ele mesmo escolher a equipe que o acompanhará. Os rostos de atores conhecidos aparecem em meio à clientela. Juno Temple (Susan), Haley Lu Richardson (Ingrid), Michael Peña (Mark) e Zazie Beetz (Janet) são alguns desses que formam um grupo de seis pessoas. Não à toa, esse esquema de tentativas repetidas se assemelha ao mecanismo central dos games.
Modo antologia
A estrutura narrativa assume, então, um formato de antologia para apresentar esses personagens. São todos relatos distópicos que lembram episódios da série Black Mirror.
Professores do ensino fundamental, Mark e Janet lidam com uma situação extrema na qual os alunos só olham para os seus celulares. Com atitudes agressivas, esses jovens ditam as regras na escola.
Susan vive uma realidade ainda mais louca, que vai muito além da situação anterior – e por isso parece não pertencer ao mesmo enredo. Nela, os tiroteios nas escolas se tornaram tão comum que os pais já estão acostumados a substituírem seus filhos mortos por clones.
No caso da arredia Ingrid, ela sofre de alergia à tecnologia, um efeito colateral do seu uso excessivo pela sociedade. Este segmento mostra o processo alienatório que sofre o namorado de Ingrid depois que ele começa a usar um aparelho de realidade virtual que ganha de graça.
Por fim, o homem que quer salvar o mundo como o Exterminador do Futuro (1984) revela sua infância numa Terra devastada e gelada.
Apesar de intercalados pelas sequências repletas de ação da narrativa principal, que acontecem em ritmo de montanha-russa, esses relatos segmentados e independentes entre si se assemelham demais a uma antologia. E, esse formato sempre estimula uma comparação entre os episódios. Neste caso, os dois primeiros são muito superiores aos demais.
Game over
A parte final do filme soa irregular. Trabalha algumas ideias apocalípticas tão impactantes quanto o epílogo do longa O Nevoeiro (2007). Entre elas, o animal gigante com cabeça de gato, membros de outros animais e um pescoço formado por vários gatos, muito lovecraftiano. E o menino que cria o programa da IA, sentado sobre uma pilha de peças tecnológicas, também é uma imagem perturbadora. Por outro lado, o bando de adolescentes com celulares atacando como zumbis parece pouco imaginativo e sua execução é amadora.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, além disso, termina mal, caindo na onda de surpreender o público ao máximo, sem considerar que nem sempre essa é a melhor opção.
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Ficha técnica:
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra | Good Luck, Have Fun, Don’t Die | 2025 | 134 min. Estados Unidos, Alemanha, África do Sul | Direção: Gore Verbinski | Roteiro: Matthew Robinson | Elenco: Sam Rockwell, Haley Lu Richardson, Michael Peña, Zazie Beetz, Juno Temple, Asim Chaudhry, Tom Taylor, Stevel Marc, Tanya van Graan.
Distribuição: Paris Filmes







