Boi Neon, sexto longa do diretor recifense Gabriel Mascaro, retrata a vida rústica do interior nordestino. Para isso, acompanha alguns dias da rotina de Iremar, o vaqueiro interpretado por Juliano Cazarré que trabalha em rodeios, mas sonha em entrar para a crescente indústria de roupas na região.
É um cenário em transformação, como o filme faz questão de sugerir nas entrelinhas. Iremar está na base da pirâmide social da rica economia da vaquejada. Faz apenas os serviços gerais, não sendo peão nem nada considerado importante. Nesse sistema, as movimentações de cargo só acontecem horizontalmente, como é o caso de seu amigo que se muda para cuidar de uma vaca premiada em outra fazenda. Mas isso nem importa muito para Iremar. O que o faz sonhar em entrar para a indústria de confecções é o seu gosto pela moda. Por isso, ele cata retalhos de tecidos descartados em terrenos baldios, desenha calcinhas nas fotos de mulheres nuas em revistas masculinas e junta crinas de cavalos para tingi-las de dourado.
Há uma questão preconceituosa, enraizada na tradição machista, que segmenta esses dois trabalhos. Segundo ela, machos são vaqueiros; quem lida com moda é mulher ou afeminado. O filme mantém essa tolice escondida. Ninguém faz troça de Iremar. Porém, as pistas desse machismo estão ali. Por exemplo, o vendedor da loja de armarinhos é gay. Iremar, sem motivo aparente, trata mal o novo trabalhador que entra no lugar do seu amigo. Seria por ciúme, porque ele é “boa pinta” e tem longos cabelos (como as crinas de cavalo que ele adora), ou por que ele quer reprimir uma atração que sentiu de imediato? O próprio título do filme, Boi Neon, parece carregar essa ideia do animal bruto coberto com adornos.
Identidade e gênero
O sonho profissional é também pessoal e íntimo. Portanto, materializa-se em reiteradas sequências oníricas de uma mulher de lingerie com uma cabeça de cavalo dançando para o público. A imagem, surreal, lembra o cinema de David Lynch, principalmente por conta da fotografia estilizada, em tons fortes. O trabalho de Diego Garcia, responsável por esta função, aliás, destaca-se ao longo de todo o filme.
O longa sugere nas entrelinhas que o motivo da quebra da tradição machista está na ausência da influência da figura paterna. Assim, dentro do grupo da vaquejada está a menina Cacá (Alyne Santana), que é filha de Galega (Maeve Jinkings) com um pai desconhecido. Perto do final, Iremar transa com a segurança de uma fábrica de roupas. Essa cena, que chama a atenção por ser filmada em tomada única com um realismo que beira o sexo explícito, tem ainda o detalhe de que a mulher está grávida, exibindo uma barriga enorme. Mais uma vez, repete-se a sina de um pai desconhecido ou ausente.
Além disso, essa conclusão ainda simboliza que, talvez, esse seja o mais próximo que Iremar consegue chegar de seu sonho de entrar na indústria de confecções, unindo seu desejo de criação à própria gênese da vida. Ao cruzar a crudeza do ambiente da vaquejada com a sensibilidade estética de seu protagonista, o diretor constrói um retrato sensível sobre identidade e gênero no Nordeste contemporâneo. Assim, Boi Neon consolida-se não apenas como uma obra visualmente impecável, mas como uma profunda reflexão sobre o desmanche de velhos estigmas em um Brasil profundamente marcado por contrastes.
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Ficha técnica:
Boi Neon | 2015 | 101 min. | Brasil, Uruguai, Países Baixos | Direção: Gabriel Mascaro | Roteiro: Gabriel Mascaro | Elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Vinícius de Oliveira, Alyne Santana, Carlos Pessoa, Samya de Lavor.
Distribuição: Imovision.



