O filme anterior de Yorgos Lanthimos, Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness, 2024), despertou a desconfiança de que o diretor perdeu a mão. Seu novo lançamento, Bugonia, confirma essa impressão. Ele continua firme em sua descrença nas pessoas, mas a sua crueldade que incomodava com situações bizarras nos seus melhores trabalhos – O Lagosta (The Lobster, 2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017) – descambou no escracho total.
De fato, no lugar da violência exagerada do último longa, desta vez ele despeja trechos de comédia satírica que parecem esquetes de programas humorísticos de baixo calão. Ao invés de chocar, acaba ofendendo o espectador ao submetê-lo a tantas tolices. É o oposto do humor inteligente.
A maior parte das duas horas do filme insiste na mesma piada. Obcecado por teorias da conspiração, Teddy (Jesse Plemons) acredita que encontrou evidências que alienígenas mal-intencionados vivem entre nós, disfarçados em forma humana. Um deles é Michelle (Emma Stone), a CEO de uma grande empresa farmacêutica. Por isso, com a ajuda de seu primo com deficiência intelectual Don (Aidan Delbis), Teddy a sequestra e a aprisiona em seu porão. Através de torturas, ele quer que ela confesse que é uma alienígena e sirva de contato com a nave-mãe na eclipse lunar que se aproxima.
Humor repetitivo
O humor, então, consiste nos argumentos absurdos de Teddy, e no jogo de aceitação/revolta de Michelle. Na caracterização desses personagens. Jesse Plemons está magrelo, vestindo um paletó maior que ele, com trejeitos que lembram Joaquin Phoenix em Coringa (Joker, 2019). Junto com Don, parecem dois adultos infantilizados – quando eles pulam de alegria abraçados para comemorar isso fica muito evidente. Por outro lado, Michelle personifica os CEOs de falas bonitas, mas que no fundo só pensam nos lucros. Como Lanthimos acredita que precisa ir além para mostrar a monstruosidade dela, deixa Emma Stone careca.
O enredo tenta colocar um mínimo de humanidade nesses personagens caricatos. Havia uma pré-disposição pessoal (a doença da mãe) e uma ideológica (o mal que a empresa fez para as abelhas) para Teddy ter escolhido, inconscientemente, Michelle como sua vítima. Essa informação serve como causa consistente para seu comportamento obsessivo. Porém, o próprio filme estraga tudo isso com o final surpresa (que não surpreende ninguém), que mostra Lanthimos, que já foi tão original, seguir a tendência de chocar o público, uma influência dos algoritmos da Netflix que colocam essa característica como imprescindível para agradar o espectador.
A conclusão de Bugonia, na verdade, acaba por ofender o público, de tão previsível que era. Ainda mais quando exposta com uma desnecessariamente longa montagem com a mesma situação em diferentes cenários. Sem contar que o trecho de fantasia reafirma a semelhança com os mais ridículos esquetes de programas humorísticos.
Bugonia, que é uma refilmagem do longa coreano Save the Green Planet!, de Jang Joon-hwan, está na programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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Ficha técnica:
Bugonia | 2025 | 120 min. | Irlanda, Coreia do Sul, Canadá, EUA | Direção: Yorgos Lanthimos | Roteiro: Will Tracy | Elenco: Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis, Stavros Halkias, Alicia Silverstone.
Distribuição: Universal Pictures.



