Depois da Caçada

Poster de "Depois da Caçada" (divulgação/Sony)

Título original: After the Hunt

Direção: Luca Guadagnino

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 09/10/2025

Gênero:

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 4,5/10

Dentro da carreira irregular de Luca Guadagnino, Depois da Caçada se junta aos seus filmes abaixo da média. Em relação ao tema, o diretor se mantém fiel aos seus interesses. Toca na identidade de gênero, e o sexo ocupa posição central na trama.

O filme começa com uma introdução promissora. Uma montagem de planos curtos apresenta a protagonista Alma (Julia Roberts) em sua rotina no apartamento, onde mora com o marido Frederik (Michael Stuhlbarg), e na Universidade de Yale, onde leciona Ética. A sequência seria banal, não fosse pelo barulho muito alto do tique-taque de um relógio, indicando que um incômodo persegue essa personagem. A revelação do que a perturba faz parte do desenvolvimento do enredo.

Woody Allen: estilo ou tema

Uma outra surpresa aguarda o espectador nos créditos iniciais. As cartelas copiam a fonte e o layout usado por Woody Allen em seus filmes, bem como o jazz como música de fundo. Da mesma forma, a primeira cena também imita a obra do cineasta novaiorquino. Afinal, acontece em um apartamento urbano com decoração sóbria e repleto de livros, onde Alma e Frederik discutem sobre questões intelectuais com um grupo de amigos, entre eles o professor Hank (Andrew Garfield) e a estudante Maggie (Ayo Edebiri). Porém, essa inspiração se dissipa posteriormente, voltando apenas nos créditos finais, mas com uma música modernosa no lugar do jazz tradicional.

Fica, então, a dúvida sobre o que pretende Guadagnino com essa emulação de Woody Allen. Talvez relacionar o tema do filme com a tentativa de cancelamento por conta da acusação de abuso sexual de menor alegada por Mia Farrow. Nesse sentido, caberia tanto o apoio como a crítica ao veterano diretor, pois Depois da Caçada se abre para as duas situações. Em qualquer desses casos, seria uma motivação fraca para Guadagnino buscar essa aproximação estilística. Seria mais louvável como uma homenagem dele a um cineasta admirado, mas, nessa hipótese, Guadagnino ganharia mais mantendo esse maneirismo durante todo o filme. Até porque Woody Allen é infinitamente mais talentoso.

Para esclarecer mais a proximidade do enredo com a acusação contra Woody Allen, na trama Maggie confidencia a Alma que seu professor, Hank, a forçou a ter relações sexuais com ele naquela noite. Por motivos revelados somente depois, Alma evita o apoio incondicional à sua aluna, para decepção desta. Concentrando-se em Alma, o enredo mostra quanto essa posição a afeta negativamente.

Direção e elenco

A direção de Guadagnino neste filme incomoda. Em alguns trechos, parece desleixado, como quando usa o mesmo plano numa conversa, movimentando a câmera em direção a quem está falando. Já em outros, tenta algo inventivo que também não funciona – por exemplo, no diálogo entre Alma e Hank no apartamento alternativo, ao alternar a câmera subjetiva entre os interlocutores. Em mais de uma cena, o diretor usa cortes ruidosos ao mostrar os movimentos das mãos dos personagens intercalados com os seus rostos. Quando arrisca, como na movimentação ousada da câmera no alto deslizando sobre a cama no hospital, fica difícil entender o que está acontecendo na cena.

A direção de elenco também falha. Julia Roberts exibe a mesma expressão assustada o tempo todo. Andrew Garfield nunca consegue entrar no seu personagem falastrão e sedutor. Ayo Edebiri não convence como a jovem mimada e perdida que deveria ser. Mas, o pior de todos é Michael Stuhlbarg, que precisa dar autenticidade ao ingrato papel caricato do marido espalhafatoso. Chegam a incomodar, de tão ridículas, as cenas em que seu personagem, Frederik, entra e sai da cozinha várias vezes enquanto Alma e Maggie discutem na sala, e quando ele prepara uma comida imitando trejeitos de um maestro. Só Chloë Sevigny se salva, encarnando de forma camaleônica uma psicóloga.

Depois da Caçada fracassa. Quer ser chique, colocando música brasileira na trilha – “É Preciso Perdoar” em diferentes versões, e “Ligia”, de Antonio Carlos Jobim – e moderno – com “Nothing Left to Lose”, do Everything But the Girl. Mas, no fundo, repete o Luca Guadagnino afetado de Suspiria (2018) e Rivais (2024).

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Ficha técnica:

Depois da Caçada | After the Hunt | 2025 | 138 min. | EUA, Itália | Direção: Luca Guadagnino | Roteiro: Nora Garrett | Elenco: Julia Roberts, Ayo Edebiri, Andrew Garfield, Chloë Sevigny, Michael Stuhlbarg, Thaddea Graham, Will Price.

Distribuição: Sony Pictures.

Trailer:

Onde assistir:
Julia Roberts em "Depois da Caçada"
Julia Roberts em "Depois da Caçada"

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