No filme Digger, de Alejandro G. Iñárritu, nada é o que parece ser. A abertura lança essa ideia: pontos brilhantes sobre um fundo escuro parecem estrelas no céu, mas são bolhas de água; uma bela paisagem em um quadro possui uma cortina que se levanta como no teatro, revelando a janela suntuosa da mansão do protagonista.
Tom Cruise, aqui com rugas e uma barriga flácida — características que são coerentes com a sua idade atual —, interpreta o magnata Digger Rockwell. A estupenda direção de arte que enche a sua mansão de velharias e animais empalhados diz bastante sobre a personalidade desse poderoso bilionário. A decoração de mau gosto combina com esse tipo de homem que toma decisões baseando-se apenas em suas próprias opiniões, descartando os especialistas. Desde que seu avô descobriu petróleo no deserto do Texas, essa busca incessante pelo lucro maior tem sido a regra da família. Mas, em algum momento, a conta ia chegar. A cobrança vem da natureza, por meio de valas que destroem uma plataforma de petróleo de Digger na Groenlândia, deslocando uma enorme placa de gelo que ameaça causar estragos incalculáveis na Europa.
A sátira do “rei do mundo” e a busca pelo plot twist
O filme se mantém em um tom constantemente exagerado. O personagem Digger age como se fosse o “rei do mundo”, pisando em quem estiver à sua frente — até mesmo na meia-irmã, vivida por Sandra Hüller, cuja persona parece forte demais para o papel. Com o presidente dos Estados Unidos, interpretado em tom farsesco por John Goodman em uma clara imitação de Donald Trump, Digger fala de igual para igual. Já o sensato Ganesh (Riz Ahmed), responsável pela segurança das operações da empresa, nunca é devidamente ouvido.
Quando a catástrofe se concretiza, os americanos poderosos a observam de uma sala nos Estados Unidos. O filme mostra as reações de espanto deles, mas não o que eles veem. Essa elipse não é um recurso spielberguiano; faz parte da narrativa, assim como o tom acima da média predominante. No fundo, Iñárritu entra na onda contemporânea de apostar no plot twist, na revelação que surpreende o espectador. Uma delas surge no meio do filme, aproximando-o de Birdman (2014), e a outra surge na conclusão, confirmando a sátira presente no tema.
A premissa permite um jogo dinâmico de envolver o espectador para, depois, afastá-lo. Quando o envolve, o filme cresce e fica mais interessante do que na outra chave. Mas, mesmo dentro dela, há momentos chatos, como a conversa entre Ganesh e Digger dentro do jatinho particular, que só recupera a atenção do público quando exibe imagens do noticiário que flagram Londres tomada pela água.
A força do discurso e o apuro formal
Por outro lado, o clímax emocional acontece no discurso de Digger em uma conferência que reúne nações aliadas, como na ONU. Após os representantes de outros países detonarem o presidente americano e o especialista Ganesh, entra o magnata do petróleo — a figura mais odiada do planeta naquele momento. Em vez de se desculpar, ele ataca todo mundo e os chama de hipócritas, argumentando que a sua ganância só se viabilizou por conta dos interesses egoístas de cada um. Afinal, para a população, extrair mais petróleo significa menores custos de energia para usufruir dos confortos da modernidade. Nesse trecho, o longa prova como um bom discurso pode ser perigoso: no plenário, os delegados se dividem e a polarização termina em pancadaria geral.
O filme Digger tem seus pontos altos e alguns momentos cansativos. O tom excessivo sufoca, mas funciona como sátira — bem mais do que quando se arrefece e fica enfadonho. A abordagem exagerada, junto com a presença de John Goodman no elenco, remete ao cinema de Joel e Ethan Coen que adora flertar com o absurdo em escala grandiosa. As sequências que envolvem o segredo que o roteiro tanto preza interessam menos, inclusive o final, que só confirma o que já estava evidente. A execução de Iñárritu, apesar de tudo, é formalmente perfeita e evidencia o alto nível de uma megaprodução, tanto no que está aparente quanto na metalinguagem. Nesse sentido, pertence ao grupo das obras do diretor mexicano que priorizam a forma, como Birdman e Bardo, Falsa Crônica e Algumas Verdades (2022).
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Ficha técnica:
Digger | 2026 | EUA | 128 min. | Direção: Alejandro G. Iñárritu | Roteiro: Alejandro G. Iñárritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris, Sabina Berman | Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, John Goodman, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Sophie Wilde, Riz Ahmed, Michael Benjamin Hernandez.
Distribuição: Warner Bros.



