Falecido em 2019, o cineasta Chico Teixeira deixou inacabada a sua Trilogia do Afeto, iniciada com Casa de Alice (2007) e Ausência (2014). Coube, então, a Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes dirigirem Dolores, filme que completa essa série.
O longa acompanha três gerações de mulheres da mesma família da periferia paulistana. Dolores (Carla Ribas) está perto de fazer 65 anos e quer concretizar seu sonho recorrente de abrir uma casa de bingo e, futuramente, um cassino. Sua filha Deborah (Naruna Costa) fabrica lingerie para vender na frente de um presídio, onde seu namorado cumpre pena. Seu sonho é constituir uma família com ele, que está prestes a sair da prisão. Duda (Ariane Aparecida) é uma instrutora de tiro que está animada com a perspectiva de se trabalhar nos Estados Unidos na filial que seu chefe pretende abrir.
Três realidades
A relação entre Dolores e Deborah entra em conflito, pois a filha teme que a mãe volte a se viciar nos jogos de azar. O plano de Dolores é vender a casa e abrir o bingo. Mas, parte do imóvel pertence a Deborah, por herança. O roteiro resolve essa questão de forma simplificada demais, expondo as fraquezas da personagem-título, que se mostra incapaz de resistir ao seu vício e ainda recorre a um ato ilícito contra a própria filha. A maneira como ela perde o dinheiro da venda da casa poderia ser mais bem trabalhada (ela aposta tudo em uma jogada).
No caso de Deborah, seu sonho, bem mais pé-no-chão do que o da mãe, acaba porque ela se ilude com o amor do parceiro encarcerado. Esperou tanto tempo pela soltura do companheiro, mas ele não estava nem um pouco a fim de construir uma família com ela.
Duda, a mais jovem das três, parece não se importar com o fato de que o chefe está envolvido em negócios criminosos. A filial não vinga, e a garota parte para um ato desesperado que não tem nenhuma chance de dar certo. O filme não revela o seu desfecho, mas uma tragédia está iminente.
São três histórias tristes, de mulheres que querem mudar as suas vidas, mas sem perceber que buscam as soluções erradas. Não é no jogo de azar, no companheiro insincero (e talvez criminoso), nem no tráfico de armas que elas realizarão os seus sonhos.
O fim do afeto
As três protagonistas ganham seus respectivos destaques durante o longa. Nesses segmentos, o nome da personagem aparece na tela. Começa com Deborah, depois é a vez Duda e, por fim, de Dolores. Duda tem um momento de dança e Dolores de cantoria, sem função narrativa, algo que tem sido constante no cinema brasileiro. Essa segmentação toda não significa que o protagonismo de cada uma se intensifique tanto nesses trechos. Na verdade, o nome na tela indica quem verá o seu sonho arruinado. Emblematicamente, uma outra personagem importante, Marlene (Gilda Nomacce), a amiga de Dolores, não tem seu nome escrito na tela e é a única que realiza o seu sonho, o de viver com a companheira após ela sair da detenção.
Através de recorrentes momentos oníricos, Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes reforçam que o sonho de abrir um bingo vira uma obsessão para Dolores. Enquanto ela toma suas decisões erradas, sempre o filme volta a mostrar suas projeções de um futuro glamuroso como dona de uma casa de jogos. Na última sequência de sonho, ela inclui tudo o que já perdeu. Ou seja, agora não só a possibilidade de abrir um cassino no Paraguai, mas também a companhia da filha e da neta. Se o afeto está no centro desta trilogia, este filme revela a sua perda.
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Ficha técnica:
Dolores | 2025 | Brasil | 84 min. | Direção: Maria Clara Escobar, Marcelo Gomes | Roteiro: Maria Clara Escobar, Marcelo Gomes | Elenco: Carla Ribas, Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Teca Pereira, Zezé Motta, Roney Villela, Bruno Kott, Mateus Fagundes.
Distribuição: California Filmes.







