Extermínio: O Templo dos Ossos começa onde terminou Extermínio: A Evolução (28 Years Later, 2025). Portanto, justamente no trecho mais fraco do belo filme que marcou o retorno de Danny Boyle à direção e de Alex Garland ao roteiro desta franquia iniciada pelos dois em Extermínio (28 Days Later, 2002), e que gerou também Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007), dirigido por Juan Carlos Fresnadillo e escrito por este com Rowan Joffe, Enrique López Lavigne e Jesús Olmo.
No final de Extermínio: A Evolução, o menino Spike (Alfie Williams) encontra um bando enlouquecido de rapazes e moças vestindo roupas coloridas e matando os zumbis com facilidade – e prazer. Na primeira cena do novo filme, Spike passa por um ritual de iniciação para poder entrar nesse grupo liderado por Jimmy Crystal (Jack O’Connell). O desafio é derrotar um dos outros Jimmys num duelo até a morte. Contando com a sorte, Spike derrota seu oponente e se torna um novo Jimmy. Mas, com isso, precisa testemunhar um odioso ataque a uma família isolada.
Em paralelo, o Dr. Kelson (Ralph Fiennes), que continua em seu templo de ossos, inicia uma improvável amizade com um zumbi gigantesco que ele apelida de Sansão (Chi Lewis-Parry). Após aplicar a substância química que preparou, o médico identifica um processo de recuperação de consciência do novo companheiro. O filme não exalta, mas essa descoberta pode ser a esperança para que uma cura possa recuperar os infectados e a humanidade possa voltar ao estado normal antes da pandemia.
Poucos zumbis
Apesar de o roteiro ser de Alex Garland, este filme se afasta do núcleo narrativo do primeiro longa. Não se trata mais de acompanhar as pessoas tentando sobreviver à epidemia de zumbis que infestou o Reino Unido. As criaturas infectadas aparecem pouco, e são facilmente eliminadas pelos Jimmys ou por Sansão (que enfrenta sozinho a maior quantidade de zumbis no filme). Isso significa jogar fora o que deu certo na franquia, e desapontar o público que vai ao cinema em busca desse tema.
Essa decisão parece indicar que os realizadores temem que o subgênero dos ataques zumbis esteja esgotado, que o público não se interesse mais por esse assunto. Se a motivação realmente for essa, o mais honesto seria não dar sequência a essa franquia.
De fato, em Extermínio: O Templo dos Ossos, o foco não está nos zumbis, mas em demonstrar que os seres humanos é que são as criaturas mais desprezíveis deste planeta. Afinal, foram as pessoas que criaram o vírus que produziu os zumbis e, pior ainda, numa situação de caos total, surgem sujeitos como Jimmy Crystal e seus seguidores, que matam os zumbis por diversão e sentem prazer em cometer atrocidades contra outros seres humanos. Por causa de gente assim, quando se descobre uma solução, esta acaba se perdendo – como prova o destino do Dr. Kelsen. O filme aposta nessa descrença na humanidade, mas não consegue trabalhar a narrativa em prol disso.
Nia DaCosta é ainda um talento promissor?
Desta vez, quem assume a direção é Nia DaCosta, que teve uma ascensão rápida até agora injustificada. Começou com o bom drama policial Passando dos Limites (Little Woods, 2018), depois fez um inesperado slasher na sua refilmagem A Lenda de Candyman (Candyman, 2021), que dividiu opiniões (achei bem dirigido, mas não é assustador o suficiente), e o unanimemente fraco As Marvels (The Marvels, 2023).
Agora, novamente à frente de um filme de grande orçamento, Nia DaCosta transforma esta franquia sobre zumbis em um torture porn, ao acompanhar as atrocidades dos Jimmys. Nesse sentido, produz imagens perturbadoras – mas, será que isso cabe nessa franquia que, apesar de violenta, nunca teve essa brutalidade provocada por humanos doentios?
O mais grave, porém, está na sua abordagem do personagem de Ralph Fiennes. Nem parece o mesmo Dr. Kelson do filme anterior, que era tão autossuficiente e genialmente assustador. Já nas primeiras cenas, ele dá sinais de uma certa tolice, ao enfrentar tranquilamente um zumbi gigantesco como o Sansão, e cantarolando músicas do Duran Duran. Depois, chega até a dançar com esse zumbi em processo de recuperação. O encontro dele com o grupo de Jimmy Crystal, que alega ser o filho do diabo (Old Nick), deveria ser o clímax para o qual convergem as duas narrativas paralelas, inclusive porque ele se reencontra com Spike, a quem ajudou no filme anterior. No entanto, a reunião representa dois momentos difíceis de engolir.
O número da besta
Primeiro, a conversa a dois entre Dr. Kelson e Jimmy Crystal segue num lenga lenga terrível, tão chato quanto o bate-papo entre Spike e uma Jimmy (Erin Kellyman). O filme despenca para um trecho sonolento, que só é quebrado com um jump scare muito bem utilizado (e que envolve zumbis, que a esse ponto já deixam saudades no espectador).
Em seguida, na reunião do grupo todo, surge uma cena constrangedora de tão ruim. Para fingir que é o diabo para os Jimmys, o Dr. Kelson coloca uma fantasia, põe “The Number of the Beast”, do Iron Maiden, para tocar em volume alto, e se apresenta cantando junto, em meio a algumas explosões de pólvora. A ideia parece ter vinda de adolescentes, nunca desse personagem. Difícil entender a intenção de Nia DaCosta ao filmar essa cena. Se era para injetar um humor inusitado, não funciona e não cabe neste filme. E se era para ser sério, então, o problema é uma total falta de noção.
O epílogo entorna o caldo de vez. Por pura apelação para agradar o público, um personagem antigo retorna à tela, para mostrar que conseguiu sobreviver e está bem. Como hoje o ator está bem mais famoso do que em 2002, fica evidente a intenção de provocar uma reação entusiasmada do público na sala de cinema. Mas, não adianta. Parece um truque barato. E inútil, porque Extermínio: O Templo dos Ossos desprezou os zumbis, estragou o personagem do médico e ainda apelou para o torture porn. Se Alex Garland pretende fazer uma nova sequência, que traga os zumbis e Danny Boyle de volta.
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Ficha técnica:
Extermínio: O Templo dos Ossos | 28 Years Later: The Bone Temple | 2026 | 109 min. | EUA, Reino Unido | Direção: Nia DaCosta | Roteiro: Alex Garland | Elenco: Ralph Fiennes, Jack O’Connell, Emma Laird, Robert Rhodes, Erin Kellyman, Chi Lewis-Parry, Alfie Williams, Louis Ashbourne Serkis.
Distribuição: Sony Pictures Brasil.



