Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Poster de "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"

Título original: Hamnet

Direção: Chloé Zhao

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 29/01/2026

Gênero:

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 10/10

A diretora Chloé Zhao despontou com o poético Songs My Brothers Taught Me (2015), sobre os povos originários americanos na atualidade, e depois se consolidou com o premiadíssimo (por exemplo, ganhou 3 Oscars: melhor filme, direção e atriz) Nomadland (2020), que traz outro recorte marginal do povo estadunidense, daqueles que moram em trailer sem endereço fixo. Logo chamou a atenção de Hollywood, e Zhao foi contratada para dirigir Eternos (2021), tremendo fracasso da Marvel. Quatro anos depois, a cineasta nascida na China e que se mudou para os Estados Unidos onde construiu a sua formação a partir do ensino médio, tem a oportunidade e o desafio de reafirmar o seu talento em seu novo filme, Hamnet: A Vida antes de Hamlet.

Hamnet: A Vida antes de Hamlet se baseia no livro “Hamnet” (2020) de Maggie O’Farrell. A autora parte da morte do filho de William Shakespeare (1564-1616) aos 11 anos, para daí especular que a dor do luto o inspirou a escrever sua peça “Hamlet”. Portanto, Chloé Zhao se distancia dos recortes realistas da sociedade contemporânea americana e da fantasia de super-heróis para lidar com uma figura história do Renascimento Inglês. Nessa transição, muda também o seu estilo de filmar. Nada de câmeras soltas com lentes grandes angulares. Desta vez, prevalece a câmera fixa ou que se movimenta firmemente sobre carrinhos em trilhos ou gruas. Privilegia planos longos, nas cenas internas mantendo a visão de um espectador de teatro, como pede o tema do filme. A fotografia, em tons fortes, combina locações naturais com cenários de época, privilegiando o belo, inclusive na caracterização da camaleônica e versátil atriz Jessie Buckley, que nunca esteve tão exuberante quanto neste papel da Agnes, a esposa de Shakespeare.

Um romance

Estrategicamente, o nome William Shakespeare só é mencionado na parte final, quando ele já se tornou um dramaturgo profissional em Londres. Dessa forma, esse personagem ganha ares de uma pessoa comum, e o público pode apreciar o desenvolvimento do romance do casal sem nenhuma deturpação enviesada. Ou seja, não se questiona se o bardo era assim tão bonito e charmoso quanto a versão materializada na tela por Paul Mescal, e se o casal tinha esse fogo todo.

A percepção desprovida de preconcepções permite entrar em liberdades ainda maiores, como a sensibilidade mística de Agnes. A apresentação da personagem sensorialmente indica essa faceta, no plano que começa no topo de uma árvore e desce até o solo onde Agnes dorme em posição fetal, emblemático para o primeiro parto dela, que ela realiza sozinha com a ajuda da Natureza. Nasce assim a saudável Susanna, enquanto o segundo parto, que acontece dentro de casa, devidamente assistida, dá à luz aos gêmeos Hamnet e Judith, mais fragilizados e suscetíveis à epidemia de peste que assolaria a Inglaterra. A morte do menino também ganha ares místicos, engando a morte que queria levar a irmã dele. Hamnet se mantém preso entre a vida e a morte, sem conseguir fazer a travessia até que ele, seu pai e sua mãe consigam apaziguar seus sentimentos.

Um conflito

O conflito entre o pai e a mãe surge antes, quando ele viaja para Londres para não comprometer seus primeiros trabalhos escrevendo peças e deixa Agnes em casa no final da gravidez. Onze anos depois, essa semente da discórdia cresce e atinge dimensões insuportáveis quando Hamnet morre e o pai, já um dramaturgo estabelecido, está constantemente longe de casa. Ele próprio se culpa, e a esposa reforça esse sentimento ao acusá-lo pela ausência nesse momento trágico.

Talentosos, Jessie Buckley e Paul Mescal potencializam a dor imensa que sentem. O grito de Agnes na tragédia do filho arrepia até o mais frio dos espectadores (e ela grita muito nesse filme, por diferentes motivos), enquanto o dramaturgo expurga seu sofrimento na criação de falas célebres como “to be or not to be”.

Um final catártico

Contudo, esse processo só se resolve na parte final, quando Agnes viaja até Londres e assiste à apresentação da nova peça do seu marido Shakespeare, “Hamlet”. De início indignada pela possível banalização da tragédia familiar, aos poucos ela compreende a intenção do autor. Na peça, como já é de conhecimento geral, o pai morre e volta como fantasma para alertar o filho sobre o plano de traição dentro da família.

A escolha de elenco no filme possui responsabilidade vital nessa conclusão, pois quem interpreta Hamlet é Noah Jupe, irmão mais velho de Jacobi Jupe, que faz Hamnet. E a incontestável semelhança entre eles de imediato revela como Shakespeare, através de sua obra, se despede finalmente do filho, eliminando, assim, a culpa que o atormenta.

Enquanto isso, Agnes vê Hamnet podendo agora realizar o que ele sonhara fazer quando crescesse. Além disso, descrente das religiões tradicionais, ela encontra ali no teatro a igreja adequada para a passagem de seu filho para o descanso eterno. O gesto dela, estendendo a mão a Hamlet no palco, provoca a cumplicidade entre ela, o marido e o filho, e uma catarse geral no público do teatro, e provavelmente do cinema também. Chloé Zhao encerra seu filme no momento certo, consolidando um dos finais mais belos do cinema nos últimos anos.

Hamnet: A Vida antes de Hamlet marca o retorno de Chloé Zhao ao cinema de primeira qualidade. Agora, comprovando que a exaltação a Nomadland não foi precipitada, e nem as premiações, já que este seu novo filme entra forte nas disputas de melhores do ano.       

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Ficha técnica:

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet | Hamnet | 2025 | 125 min. | Reino Unido, EUA | Direção: Chloé Zhao | Roteiro: Chloé Zhao, Maggie O’Farrell | Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, David Wilmot, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, Elliot Baxter, Noah Jupe, El Simons, Louisa Harland, Jack Shalloo, Sam Woolf, Hera Gibson.

Distribuição: Universal Pictures.

Trailer:

Onde assistir:
Jessie Buckley em "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (divulgação: Universal Pictures)
Jessie Buckley em "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (divulgação: Universal Pictures)

Outras críticas:

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