O cineasta irlandês John Carney já pode ser chamado de especialista em filmes sobre músicos iniciantes ou fracassados. Seus melhores filmes confirmam sua fama: Apenas uma Vez (Once, 2006), Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again, 2013), Sing Street (2016) e Flora e Filho (Flora and Son, 2023). Porém, parecia perder o fôlego nessa trajetória, pois os mais recentes dessa lista não são tão bons quanto os mais antigos. Hit para Dois (Power Ballad) quebra essa tendência com o poderoso arco de desenvolvimento do seu protagonista, processo amarrado consistentemente com o enredo.
O azarão da vez é Rick, um músico de rock dos anos 1980 e 1990 que hoje ganha a vida em uma banda de covers que toca em festas de casamento. Paul Rudd faz o papel, voltando a pegar na guitarra e a cantar como fez em Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man) de 2009, e faz isso muito bem. Mas, Rick ainda sonha com o sucesso, como mostra a sequência inicial, na qual a pista de dança, até então animada, se esvazia quando ele decide tocar uma de suas composições. Para evidenciar o quanto ele se ilude com essa esperança, o filme materializa na tela o que se passa na sua cabeça, ou seja, Rick tocando sua música para uma plateia imensa.
Um dueto mágico
A banda em que ele toca se apresenta numa festa elegante em um castelo irlandês. De improviso, Danny Wilson (vivido por Nick Jonas, um dos Jonas Brothers), amigo do noivo e um antigo astro de uma boys band, sobe ao palco para uma canja. O dueto de “I Wish”, do Stevie Wonder, funciona que é uma maravilha. O entrosamento musical se aprofunda mais tarde, quando os dois descompromissadamente trocam ideias sobre suas composições durante a noite toda, em meio a uma certa bebedeira.
Essa sequência é muito bem encenada, pois transmite o quanto os dois desconhecidos se conectam por causa da música. Ao mesmo tempo, não deixa claro se Rick de fato é o autor de “How to Write a Song Without You”, canção que Danny grava depois de alguns meses e estoura nas paradas de sucesso. Essa confusão é essencial para que o filme funcione, pois o conflito da trama se concentra na luta de Rick para ter direito aos créditos da composição. Suas reivindicações, porém, ficam fragilizadas porque ele não tem como provar a sua autoria.
A oportunidade desse atalho para o sonhado sucesso se transforma em uma obsessão para Rick. Depois de vasculhar sem sucesso seus arquivos para encontrar algum indício de sua alegação, o protagonista praticamente enlouquece. Chega a um ponto em que ninguém, nem seus amigos, nem a sua família, e nem o próprio espectador, acredita que ele realmente escreveu essa música. Então, acaba perdendo tudo que tem, inclusive sua esposa e sua filha. Desesperado, viaja para Los Angeles acompanhado de seu fiel amigo e guitarrista da banda, o figuraça Sandy (interpretado por Peter McDonald, coautor do roteiro junto com John Carney).
O inferno de Rick
Nesse terço intermediário do enredo, parece que o filme perde o espectador. Na verdade, o ritmo não desacelera, mas o público se desconecta do protagonista, porque ele toma atitudes desagradáveis. E, pior ainda, pelo motivo fútil de alcançar a fama e a fortuna. De fato, essa percepção realmente surge, mas o que acontece quando Rick encontra Danny prova que esse sentimento foi propositalmente conduzido pelo roteiro e pela direção.
Numa bela cena dramática, depois de Rick e Danny brigarem fisicamente, o músico irlandês se lembra do motivo e das circunstâncias que o fizeram escrever “How to Write a Song Without You”. A canção não nasceu como uma música romântica, mas é assim que Danny a trabalhou. O significado de uma obra artística depende da sensibilidade de cada um. Esse fenômeno explica por que Danny e a sua namorada não permanecem juntos depois que ele mente sobre o significado de uma canção, numa cena que remete a Mesmo se Nada Der Certo, quando a personagem de Keira Knightley percebe a partir de uma música que seu namorado a trai.
Ironicamente, ao fundo se pode ouvir as letras da música da festa afirmando que as melhores coisas na vida são de graça, como que dando apoio ao ex-integrante de uma boys band que ressurge para o sucesso com uma composição que não é sua. Mas, o que importa mesmo é que Danny redescobre o que realmente é verdadeiramente valioso em sua vida. E essa súbita epifania valoriza o filme e surge num trecho dramático filmado com habilidade.
O que realmente importa
Desse momento em diante, entrando já no terço final, o espectador está 100% ao lado de Danny, que tem a chance de consertar as besteiras que fez recentemente. Para ele, já não faz tanta diferença o reconhecimento da autoria do hit. Ele só precisava revalidar a decisão que tomou no passado e que mudou sua trajetória. Mas, o filme não se contenta só com isso. O final pelo qual todos torcem vai se materializando aos poucos – e não faz mal que esse recurso torne o desfecho previsível – numa solução das mais inteligentes e possíveis.
O próprio John Carney também redescobre as suas origens no cinema. Ex-baixista do The Frames, ele reverencia os músicos de rua como no filme Apenas uma Vez, protagonizado pelo seu colega de banda Glen Hansard. Em Hit para Dois, um músico de rua aparece primeiro cantando “Falling Slowly”, canção premiada com o Oscar por aquele filme, e retorna antes dos créditos finais recebendo uma compensação que provavelmente Carney gostaria que todos esses artistas ganhassem. No fechamento, uma outra canção embala o público ao sair da sala de cinema se sentindo mais animado e mais leve, efeito que se tornou raro nas produções contemporâneas.
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Ficha técnica:
Hit Para Dois | Power Ballad | 2026 | EUA, Irlanda | Direção: John Carney | Roteiro: John Carney, Peter McDonald | Elenco: Paul Rudd, Nick Jonas, Peter McDonald, Jack Reynor, Beth Fallon, Marcella Plunkett, Rory Keenan, Havana Rose Liu.
Distribuição: Diamond Films.







