Noah Baumbach fez parte do movimento mumblecore dentro do cinema independente americano dos anos 1990. Contrariando essa origem underground, em 2021, ele assinou um contrato de exclusividade com a Netflix*, após realizar dois filmes para esse estúdio (Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, de 2017, e História de um Casamento, de 2019). Embora seja impossível saber (salvo se uma das partes declararem) o impacto desta parceria na liberdade criativa do cineasta, seus dois filmes como diretor de estúdio decepcionam. A ficção-científica Ruído Branco (2022) tenta provocar com seu humor ácido e um inesperado trecho musical, mas vira uma tolice tremenda. E este seu novo filme, Jay Kelly, parece almejar ser um novo Oito e Meio (filme de 1963 de Federico Fellini), mas só alcança as obviedades.
Em busca de Fellini
Como o filme de Fellini, Jay Kelly lida com o drama existencial de um artista do cinema. Ator famoso, Jay Kelly (George Clooney) entra na maturidade refletindo sobre o sucesso na sua vida profissional e o fracasso na sua vida pessoal. Então, ele aproveita um convite para ser homenageado em um festival de cinema na Toscana para acompanhar a filha mais nova Daisy (Grace Edwards) em sua viagem de férias e reencontrar a mais velha Jessica (Riley Keough), que mora na Europa. Além disso, paga a passagem para o seu pai (Stacy Keach) também estar presente na cerimônia. É uma busca desesperada pelos laços familiares que nunca foram atados. Enquanto isso, Jay Kelly precisa enxergar quem são as pessoas que verdadeiramente se importam com ele.
Além desse tema, o filme de Baumbach se aproxima de Fellini nas características caricaturais dos personagens italianos que trabalham no festival (entre elas, Alba, interpretada pela prestigiada atriz italiana Alba Rohrwacher). A trupe acompanha Jay Kelly e seu pai pelos eventos programados, bajulando-os. Fica evidente a disputa de egos entre o Jay e seu pai (embora este não trabalhe na indústria do entretenimento).
O outro protagonista
Ron (Adam Sandler), o agente de Jay, possui tanto tempo de tela que rivaliza o protagonismo no enredo. Várias cenas acompanham Ron sem que Jay Kelly esteja presente. O filme mostra sua preocupação com a família (sua esposa é vivida por Greta Gerwig, a atriz e diretora casada com Noah Baumbach) e a resolução de um caso antigo com Liz (Laura Dern), que integra a equipe de Jay. Além disso, Ron lida com seu segundo mais importante cliente, Ben Alcock (Patrick Wilson). Apesar desse tempo todo na tela, Ron continua um personagem superficial, principalmente na questão de sua relação com Jay. Para que o arco dramático do enredo funcionasse, os dois deveriam compartilhar uma importância semelhante.
A direção de Baumbach
Noah Baumbach inicia seu filme com muita força. Embora siga um clichê dos filmes sobre bastidores do cinema, o plano contínuo que passeia pelos vários setores de um estúdio durante uma filmagem, é uma cena que encanta os cinéfilos e mexe com a curiosidade dos espectadores médios. Porém o outro clichê que fecha o filme irrita os cinéfilos para agradar o grande público. Típica cena de emoção fácil, se concentra na reação de Jay Kelly enquanto ele assiste ao clipe dos melhores momentos de sua extensa carreira, incluindo até um material pessoal dele com suas duas filhas. E, ali na plateia, ele olha para os lados e não vê ninguém da sua família. Pelo menos, não da sua família consanguínea, evidenciando, assim, o intuito da trama.
Alguns lampejos de criatividade trazem um pouco de brilho ao filme. Tem a cena em que Jay Kelly olha para o espelho e repete o seu nome várias vezes, que remete a Jean-Pierre Léaud repetindo “Antoine Doinel” em Beijos Proibidos (1968), de François Truffaut. E, em alguns flashbacks, o Jay Kelly adulto está no quadro vendo sua versão mais jovem em algum momento importante de sua vida. Mais próximo do fantástico, um trecho traz sua filha Jessica se materializando ao lado dele enquanto os dois conversam ao telefone. Por fim, cabe também destacar as várias corridas de Jay Kelly em terno branco – talvez uma metáfora do que ele quer alcançar, mas já está perdido para sempre.
Mas, no todo, Jay Kelly soa óbvio, emocionalmente apelativo e pouco ousado nas imagens que mergulham no fantástico. Os próximos filmes de Noah Baumbach sob contrato da Netflix servirão para analisar melhor essa etapa de sua carreira.
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Ficha técnica:
Jay Kelly | 2025 | Direção: Noah Baumbach | Roteiro: Noah Baumbach, Emily Mortimer | Elenco: George Clooney, Adam Sandler, Billy Crudup, Laura Dern, Grace Edwards, Stacy Keach, Riley Keough, Emily Mortimer, Patrick Wilson, Nicôle Lecky, Thaddea Graham, Jim Broadbent, Eve Hewson, Alba Rohrwacher, Lenny Henry, Josh Hamilton, Greta Gerwig.
Distribuição: Netflix.
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