Kokuho – O Preço da Perfeição, o representante do Japão para o Oscar 2026 não conseguiu entrar na lista de indicados a Melhor Filme Internacional, mas concorre na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo, com boas chances de levar o prêmio. É uma adaptação do livro escrito por Shuichi Yoshida e lançado em 2018. Sucesso de bilheteria no Japão, conquistou a posição de filme live-action japonês de maior bilheteria de todos os tempos, atingindo US$ 130,8 milhões e mais de 12,3 milhões de ingressos vendidos.
Com dimensões épicas, o filme acompanha a vida de dois atores do teatro kabuki, que se especializaram na arte do onnagata, de homens em papéis femininos, tradição oriunda do século XVII, quando o shogunato proibiu mulheres atrizes. A história, ficcional, começa em Nagasaki, em 1964. O consagrado ator Hanjiro Hanai (Ken Watanabe) visita o restaurante do líder da yakuza Tachibana, e fica impressionado com a atuação do onnagata que se apresenta ali. E, mais ainda ao saber que ele é Kikuo, o filho de Tachibana. Porém, nessa noite trágica, Kikuo testemunha seu pai ser assassinado.
Hanjiro decide acolher e treinar Kikuo, colocando-o junto com seu filho Shunsuke, dando início assim a uma relação de amizade e rivalidade entre os dois jovens que atravessará décadas. Por não contar com a herança artística no sangue, Kikuo entrega uma dedicação extrema diante do rigoroso mestre, o que acaba também estimulando Shunsuke. Em bela montagem de cenas paralelas, o diretor Sang-il Lee demonstra como os dois repetiam os movimentos das danças não só nas aulas, como durante outros momentos do dia.
Ascenção
O reconhecimento por essa dedicação não demora para aparecer. Depois de se apresentarem nos pequenos teatros locais, Kikuo (Ryo Yoshizawa) e Shunsuke (Ryusei Yokohama) recebem o convite do mecenas do Grupo Sumitomo para estrearem no magnífico Teatro Osaka Shochiku-za. Novamente, o diretor Sang-il Lee demonstra talento ao resumir em poucos minutos a apresentação dos dois, sem deixar de exaltar a excelência da performance. Adotando o nome “To-Han”, a dupla alcança o sucesso. A trajetória dos dois, porém, será marcada por difíceis decisões e tragédias.
O mestre Hanjiro reconhece que Kikuo tem mais talento que o seu filho. Então, quando sofre um acidente, escolhe-o como seu substituto, o que causa um atrito dentro da família e da comunidade kabuki. Shunsuke reconhece com tristeza a superioridade do amigo e concorrente, e resolve fugir, mas levando junto a namorada de infância de Kikuo, Harue (Mitsuki Takahata), com quem iria se casar e ter um filho.
A exacerbada dramaticidade do teatro kabuki impregna também a trama de Kokuho. Mortes de personagens principais acontecem em cima do palco, só para se ter uma ideia. Com o filho sumido e sem se apresentar, Hanjiro decide que Kikuo herdará seu título artístico, Hankiro Hanai III. Porém, após a morte do mestre, Kikuo sofre ataques da imprensa e da comunidade kabuki por vir de uma família da yakuza e por ter roubado o lugar que era do verdadeiro herdeiro Shunsuke. Além disso, tem uma filha ilegítima com uma gueixa. Um pouco antes de seu declínio, enquanto estava em ascensão, ele diz à menina que pediu ao diabo que o torne o maior ator de kabuki do Japão.
Tesouro Nacional
Mas, a ambição o leva a se casar por interesse com a filha de um influente membro do kabuki, o que o faz perder qualquer chance de se apresentar novamente. Depois de descer ao inferno, reencontra Shunsuke, fazem as pazes e sobem ao palco juntos. Mas, mais tragédias encontram o caminho de Kikuo em sua busca por conquistar o honroso título de Kokuho (Tesouro Nacional do Japão). O último frame do filme traz o ator no palco olhando para cima, exclamando “que belo!”, ao repensar sobre a sua vida de extremas alegrias e tristezas.
Este melodrama épico traz imagens belíssimas. O diretor japonês Sang-il Lee, de avós coreanos, filma com talento as passagens mais emotivas, mas se destaca pelos trechos em que consegue captar a essência do teatro kabuki, repleto de alta carga dramática que nos faz lembrar de várias passagens do cinema de Akira Kurosawa. De Sang-il Lee, fica a nossa própria lição de casa para buscar seus filmes anteriores, entre eles: Um Paraíso Havaiano (Hura Garu, 2006), Vilão (Akunin, 2010), Os Imperdoáveis (Yurusarezaru mono, 2013) – refilmagem do clássico de Clint Eastwood – e Fúria (Ikari, 2016).
Não dá para sentir as quase três horas de duração de Kokuho, de tão absorvente que é essa trajetória de altos e baixos. Pelo contrário, queremos que o filme dure mais tempo, para não termos que abandonar esse ambiente único. Por fim, fica só a observação de que o subtítulo “O Preço da Perfeição”, que parece buscar uma familiaridade com Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014), além de desnecessário, desvirtua o significado do título original. Por que não o chamar de “Kokuho : Tesouro Nacional”?
___________________________________________
Ficha técnica:
Kokuho – O Preço da Perfeição | Kokuho (国宝) | 2025 | 174 min. | Japão | Direção: Sang-il Lee | Roteiro: Satoko Okudera | Elenco: Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima, Min Tanaka, Sōya Kurokawa, Keitatsu Koshiyama, Nana Mori.
Distribuição: Sato Company e Imovision.



