Presente na programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Lorca: A Voz Partida é daqueles filmes que dificilmente chegarão ao circuito comercial brasileiro. E, se chegar, corre o risco de ficar só uma semana em cartaz. Portanto, a Mostra representa uma chance talvez única de assistir à obra na tela grande. Como costuma acontecer, isso não tem nada a ver com a sua qualidade, mas com o seu apelo comercial, pois se trata de um documentário sobre o poeta espanhol Federico García Lorca (1898–1936) — assunto para poucos iniciados.
O longa foi escrito e dirigido por Manuel Menchón, um documentarista ainda não famoso que demonstra criatividade apurada neste seu quarto filme. Como é de praxe nesse gênero, Menchón recorre a materiais diversos sobre o assunto abordado: documentos históricos, arquivos fotográficos e audiovisuais, cartas, poemas e depoimentos. Porém, elas alternam-se com narrações e até teatro de sombras.
O resultado enriquece o conhecimento do espectador com uma ambientação sólida do momento histórico do recorte escolhido, que trata do último relacionamento amoroso do poeta com o jovem Juan Ramírez de Lucas, cuja narração — interpretada por atores — conduz a narrativa.
A violência franquista
O filme parte das longínquas raízes da cidade de Granada, que cresceram sob forte influência de judeus e muçulmanos. Ali, o pai de Federico García Lorca nasceu e enriqueceu com uma grande loja de varejo. O filho escritor despontou no mundo das artes literárias e no teatro com as peças ousadas do movimento La Barraca, que chocaram a conservadora sociedade espanhola. Federico sofreu preconceito homofóbico do próprio pai, mas pior do que isso foi o golpe militar de julho de 1936. Os fascistas que levaram Franco ao governo executaram aqueles que resistiram, que criticaram e que se comportavam de maneira “inapropriada”. Lorca morreu fuzilado.
O romance derradeiro entre o narrador e o poeta é caracterizado como um relacionamento repleto de amor e ternura, como provam as repetições dos versos dos poemas de Lorca para seu namorado. A partir desse relacionamento demasiado curto, encerrado violentamente, Manuel Menchón constrói uma contundente análise sobre a violência franquista.
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Ficha técnica:
Lorca: A Voz Partida | Lorca: La Voz Quebrada | 2026 | 90 min. | Espanha, Argentina | Direção: Manuel Menchón | Roteiro: Manuel Menchón.



