O longa-metragem Mayday, disponível na Apple TV, equilibra com inteligência múltiplos contrastes: o embate ideológico entre capitalismo e comunismo, as tensões geopolíticas entre Estados Unidos e União Soviética no ano de 1987, e a dinâmica de cena entre Ryan Reynolds e Kenneth Branagh. O roteiro e a direção ficam a cargo de John Francis Daley e Jonathan Goldstein, dupla que volta a demonstrar fôlego para fundir comédia e ação com a mesma eficiência vista nos bons A Noite do Jogo (Game Night, 2018) e Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes (Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves, 2023).
Uma missão secreta na URSS
A narrativa abre com um flash forward dispensável que apresenta Troy Kelly (Ryan Reynolds) despertando após um salto de paraquedas malsucedido, gravemente ferido na perna. Ao se deparar com um desconhecido, ele tenta disparar sua arma, mas desmaia. A introdução é interrompida abruptamente e corta para o passado de Troy nos Estados Unidos, onde ele pilota caças supervelozes — uma referência direta a Top Gun: Ases Indomáveis (1986), nesta produção ambientada um ano após o lançamento do filme de Tom Cruise. Recrutado pela CIA para uma missão secreta, Troy deve fotografar uma base militar na URSS, mas seu caça é abatido, levando à cena de abertura.
O responsável por resgatar e salvar a vida do piloto é Nikolai Ustinov (Kenneth Branagh). Antigo agente da KGB, Nikolai adora cultura pop americana, que vai de pôsteres cinematográficos na parede até a devoção musical por Bruce Springsteen, culminando no desejo quase mítico de provar o Big Mac do McDonald’s. Seduzido pela promessa de asilo na América, o ex-espião decide arriscar a vida para ajudar Troy a cruzar as fronteiras soviéticas.
O elenco e os desafios dos efeitos visuais
Subvertendo as expectativas, Nikolai demonstra habilidades extraordinárias de combate, emulando o arquétipo do ex-fuzileiro naval implacável do cinema de ação oitentista. Branagh surpreende na execução das coreografias de luta, valorizadas por uma edição ágil e aceleração de quadros. O semblante severo do ator britânico funciona como o contraponto perfeito para o humor sarcástico de Reynolds, gerando uma química perfeita.
A jornada que se desenrola do interior da União Soviética em direção a Moscou rende excelentes sequências, incluindo uma fuga tensa em um trem repleto de militares. Em uma das passagens mais cômicas, a dupla é acolhida por um casal de camponeses cujo neto parece saído diretamente de um filme de terror. A longa travessia geográfica é sintetizada por uma belíssima montagem que preserva o veículo dos protagonistas em primeiro plano enquanto o plano de fundo muda, embalado pela música de Springsteen. Os diretores exibem apuro técnico ao utilizar planos com a câmera filmando do alto para explorar a geografia dos ambientes, tirando amplo proveito do formato widescreen.
No terço final, a narrativa ganha o reforço de Anna (Maria Bakalova, em uma escolha de elenco óbvia), a filha de Nikolai. O reencontro serve para que pai e filha ajustem as contas do passado em uma sequência dramática elegante: Troy observa a discussão através de uma vidraça, isolando o espectador do áudio do diálogo e apostando na força da linguagem visual.
O desfecho eleva as doses de absurdo e comédia em uma perseguição frenética pelo centro de Moscou. Durante uma parada militar, a dupla rouba um enorme caminhão que carrega uma bomba nuclear. A sequência evoca o caos automobilístico de Os Irmãos Cara-de-pau (The Blues Brothers, 1980), com viaturas empilhadas pelas estradas. Embora os excessos de computação gráfica (CGI) soem artificiais — defeito gritante no salto de paraquedas e no clímax dentro do avião —, o ritmo cômico e a energia da dupla compensam os tropeços digitais. Esta produção da Apple se consolida como uma grata surpresa.
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Ficha técnica:
Mayday | Mayday | 2026 | 110 min. | Estados Unidos | Direção: John Francis Daley, Jonathan Goldstein | Roteiro: John Francis Daley, Jonathan Goldstein | Elenco: Ryan Reynolds, Kenneth Branagh, Maria Bakalova, Marcin Dorociński, David Morse.
Distribuição: Apple TV+.



