Kleber Mendonça Filho vem construindo uma das filmografias mais consistentes dentre os diretores brasileiros. Saiu do quase experimental O Som ao Redor (2012) para obras cada vez mais de gênero – Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023) – culminando agora com O Agente Secreto. Mas, sempre preservando características de um cinema autoral, inclusive com filmes que conversam entre si.
A política sempre está presente em seus filmes. Em O Agente Secreto, só o fato de se passar em 1977, em plena ditadura militar, já indica esse direcionamento. Por isso, no enredo existe um local onde se abrigam os refugiados, que são os perseguidos políticos, seja lá por qual motivo. E, nessa trama na qual bandidos e mocinhos estão bem definidos, o maior vilão é um político corrupto. Aliás, entenda-se que o fato de serem bem definidos não exclui que os policiais sejam criminosos.
Wagner Moura vive o protagonista Marcelo, que se esconde sob um pseudônimo na pensão da dona Sebastiana (Tânia Maria). E ele precisa mesmo se esconder, pois matadores de aluguel estão atrás dele. Enquanto o serviço de proteção trabalha para conseguir os passaportes para ele e seu filho fugirem do país, os assassinos estão cada vez mais perto.
A tensão é potencializada com detalhes sombrios. Um gato com dois rostos, um alfaiate alemão com várias cicatrizes, um cadáver no posto de gasolina, uma execução num porta-malas, e até o gore de uma perna humana dentro de um tubarão. Além disso, uma sequência de terror puro, com a tal perna peluda, dialoga com o trecho deste gênero em O Som ao Redor.
A direção talentosa de KMF
Kleber Mendonça Filho movimenta a câmera em gruas e dollys como os grandes cineastas clássicos do cinema. Em mais de uma cena, constrói planos complexos que começam em um ponto onde está o personagem e acompanha-o, ou em um ponto neutro para encontrar o personagem no final do plano. Reiteradamente termina planos direcionando a lente para o quadro do presidente do Brasil num quadro. E, num deles, tem a ousadia de cortar para o poster do retrato falado de um criminoso. É cinema em estado de graça!
Depois de inserir a sala de cinema de rua de Retratos Fantasmas na história, Kleber Mendonça Filho encerra o filme em duas etapas que surpreendem. Primeiro, porque tem a petulância de deixar o protagonista de fora do confronto final, que ainda assim possui uma tensão imensa, com mortes inesperadas e brutais. Depois, satisfaz a atual sede por plot twists ao revelar quem é que está por trás das escutas que aparecem durante o filme. E, assim, concluir com um final surpresa e totalmente verossímil (a turma dos verossímeis também não tem do que se queixar).
Abandonando a busca pelo incômodo que marcou O Som ao Redor e Aquarius, Kleber Mendonça Filho abraçou o cinema de gênero com marcas autorais, para assim realizar sua primeira obra-prima, Bacurau. Já O Agente Secreto é a sua segunda obra-prima, numa filmografia com apenas seis longas.
O Agente Secreto é o representante brasileiro na disputa do Oscar 2026 na categoria Melhor Filme Internacional.
___________________________________________
Ficha técnica:
O Agente Secreto | 2025 | 158 min. | Brasil, França, Alemanha, Holanda | Direção: Kleber Mendonça Filho | Roteiro: Kleber Mendonça Filho | Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Robério Diógenes, Hermila Guedes, Udo Kier, Isabél Zuaa, Thomás Aquino.
Distribuição: Vitrine Filmes.



