O Massacre da Serra Elétrica

Título original: The Texas Chain Saw Massacre

Direção: Tobe Hooper

Ano de lançamento: 1974

Data de estreia no Brasil: 01/10/1974

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação:

4

/5

O mal-estar que originou a Nova Hollywood reverberou visceralmente no cinema de terror. Já não era necessário recorrer ao fantástico, o perigo agora fazia parte da realidade. Jovens eram convocados para a Guerra do Vietnã, acompanhada diariamente pela televisão. Parte deles morria em combate, outros retornavam transtornados pela experiência traumática. Esse ambiente de violência contamina os Estados Unidos e chega às telas também do cinema. O perigo à espreita nessas produções é real, e podem estar escondidos atrás do rosto das pessoas que encontramos no dia a dia, dentro de casas afastadas em lugares bucólicos.

Há três meses, publiquei a crítica de um produto deste espírito da época, Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972), de Wes Craven. Desta vez, escrevo sobre um filme ainda mais emblemático: O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974), de Wes Craven.

O Massacre da Serra Elétrica reverberou com maior amplitude, devido a uma esperta campanha de marketing, que dava a entender que o filme se baseava em eventos reais. A primeira sequência, esta sim, se inspira em Ed Gein, um assassino dos anos 1950 que exumava cadáveres em cemitérios e mantinha restos humanos em sua fazenda em Wisconsin. Vem dele também a macabra mania de confeccionar objetos com pele e ossos humanos. Adicione a isso elementos fictícios – uma máscara feita de pele, canibalismo e uma motosserra – e o resultado é a trama doentia do filme de Tobe Hooper.

O fim do “paz e amor”

Isso tudo faz parte de uma família de canibais que mora numa bela casa (por fora) no interior do Texas. Lá dentro, o ambiente é sinistro. Os móveis são feitos com ossos e peles, há esqueletos por toda parte e uma ala que parece um frigorífico. Nesse cômodo, trabalha um homem grandalhão mudo com máscara feita de peles (que ganharia dos fãs do filme a alcunha de Leatherface). Com uma motosserra, ele dilacera as pessoas que aparecem nos arredores. Além dele, moram ali um velho semimorto que sobrevive às custas de sangue humano, um jovem alucinado e violento, e um homem de meia idade com aparência pacata (o dono do posto de gasolina).

As vítimas no filme são um grupo de jovens com reminiscências hippies, sobras do que restou da ideologia flower power diante do mal-estar dos anos 1970.  Dois deles, os irmãos Sally (vivida por Marilyn Burns) e o cadeirante Franklin, passaram as suas infâncias numa casa ali perto, e se dirigem para lá para visitá-la durante as férias de verão. Junto a eles, estão o namorado de Sally e mais um casal.

O envolvimento com a família degenerada se dá aos poucos. Primeiro, quando dão carona ao jovem alucinado, que acaba de profanar túmulos de um cemitério para construir esculturas com os cadáveres. Depois de, com muito custo, se livrarem dele, eles param no posto de gasolina dessa família. Como o posto está estranhamente sem estoque, eles acabam presos na casa da infância de Sally, que fica ao lado de onde mora a turma de Leatherface. Ingenuamente, um a um eles batem à porta para pedir ajuda e se tornam presas fáceis para o assassino à espreita.

Como Hooper constrói o terror

A brutalidade da violência choca pelo que acontece, sem mostrar detalhes gráficos, que se tornariam comuns anos mais tarde. E eles nem são necessários. Já é doloroso o suficiente ver a amiga Pam (papel de Teri McMinn) sendo arrastada e pendurada num daqueles ganchos de frigorífico, enquanto ela observa seu namorado sendo desmembrado pelo Leatherface.

Por um lado, Tobe Hooper recorre ao expressionismo ao jogar luz de baixo para cima no rosto do dono do posto, criando sombras que tornam sua face assustadora. Esse recurso pontua a revelação de que aquele aparentemente pacato senhor integra a família canibal. E joga a incômoda descoberta sobre o churrasco que ele serviu para os jovens em um momento anterior.

Já fugindo do convencional, Hooper filma as cenas externas do terror durante o crepúsculo. Ou seja, no caloroso sol da hora mágica que o cinema tanto aprecia para captar a melhor luz para a direção de fotografia. A dramática fuga de Sally pelo campo com o Leatherface empunhando uma motosserra no entardecer se tornou uma imagem icônica do filme.

Mas, a sequência mais incômoda é o aterrorizante jantar com Sally amarrada numa cadeira e os quatro homens maníacos daquela família ao redor. Do vampirismo do velho à tortura psicológica e quase desmembramento, Marilyn Burns grita com uma incessante força desesperadora. É de arrepiar. Para impactar ainda mais, a câmera dá um zoom extremo que parece entrar nos olhos da vítima.

O recado que fica grudado na mente, porém, se materializa na cena final. Sally parte em cima de um jipe, toda ensanguentada e traumatizada para sempre, como os soldados que retornam do Vietnã. Ela observa Leatherface rodopiando com sua motosserra na estradinha, dançando ao som de uma nova era, mais violenta e menos esperançosa, tanto na América como no seu cinema.  

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Ficha técnica:

O Massacre da Serra Elétrica | The Texas Chain Saw Massacre | 1974 | 83 min. | Estados Unidos | Direção: Tobe Hooper | Roteiro: Tobe Hooper, Kim Henkel | Elenco: Marilyn Burns, Gunnar Hansen, Paul A. Partain, Edwin Neal, Jim Siedow, Teri McMinn.

Onde assistir:
Marilyn Burns em "O Massacre da Serra Elétrica"

Outras críticas:

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