Fernando Coimbra, diretor de O Lobo Atrás da Porta (2013), volta ao filme policial dos crimes impactantes no seu novo longa Os Enforcados. Desta vez, num estilo mais ousado, que explora o humor sombrio e um notável viés artístico.
Os Enforcados cabe dentro do gênero filme de máfia. E, por conta do seu humor sombrio, lembra A Honra do Poderoso Prizzi (1985), de John Huston. Mas, se trata de um filme de máfia adaptado para o Brasil. Assim, no lugar dos mafiosos de Chicago, estão os bicheiros do Rio de Janeiro. Ao invés dos cassinos, os pontos desse jogo ilegal das nossas terras. E a ópera que sonoriza os trechos mais violentos da trilogia O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, é substituída aqui pelo samba-enredo.
Jogos de cena
A trama se inicia com um estupro, porcamente encenado, porque na verdade faz parte do jogo sadomasoquista do casal Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos). Esse ato fingido que os estimula sexualmente diz muito sobre o relacionamento entre eles. Até onde o amor de Regina é sincero ou interesseiro representa uma questão fundamental no enredo, e que se resolve no epílogo sem deixar margens para dúvidas.
Igualmente, a reforma da casa do casal, processo que acompanha toda a trama, possui um valor emblemático da vontade de Valério abandonar sua vida criminosa. Afinal, ele não suporta mais continuar a sociedade com o seu tio (Stepan Nercessian), o verdadeiro chefão do grupo e (mais do que) provável assassino do seu pai. Mas, tanto no cinema como na vida real, não dá para simplesmente apagar esse passado tenebroso e seguir em frente.
Assim, Valério descobre que o único caminho que lhe resta é tomar o poder. A obra na casa, então, serve de fachada para esconder, inclusive literalmente, os seus crimes. Porém, como indica o corte em seu rosto (que remete ao de Jack Nicholson em Chinatown [1974], de Roman Polanski), a marca da bandidagem continua visível. E um novo investigador da Polícia Federal, o delegado Torres (papel do português Pêpê Rapazote), com seu sotaque diferenciado, entra no caso para desvendá-lo até o fim.
Comédia não popular
A comédia sombria não tem fácil apelo popular. Agrada a poucos, e boa parte do público costuma ter dificuldade de detectá-lo. O diretor Fernando Coimbra, além disso, faz questão de não evidenciar o seu uso. Por isso, no geral, o filme tem pouca música não diegética (não produzida dentro da cena) e nenhuma que marque o tom cômico. Ainda assim, o humor parece óbvio nas falas de Irene Ravache, que interpreta a mãe (esta sim, descaradamente interesseira) de Regina.
Já a violência absurdamente exagerada, mais nos atos dos personagens do que na sua caracterização gráfica, explode na última cena, num estilo Quentin Tarantino. Esse trecho elaborado, com o som de mar revolto reforçando o drama como no cinema de Akira Kurosawa tem a cozinha – o cômodo da casa que marca a conclusão da tão sonhada obra – filmada como se fosse um palco de teatro, cujo proscênio é ocupado pelo delegado Torres e seus policiais, que assistem ao fim da encenação de Regina.
Obra rebuscada e ousada, Os Enforcados não vai agradar ao grande público, mas seu apelo artístico pode alcançar ao espectador cinéfilo.
___________________________________________
Ficha técnica:
Os Enforcados | 2024 | 123 min. | Brasil, Portugal | Direção: Fernando Coimbra | Roteiro: Fernando Coimbra | Elenco: Leandra Leal, Irandhir Santos, Thiago Thomé, Pêpê Rapazote, Ernani Moraes, Augusto Madeira, Ricardo Bittencourt, Irene Ravache, Stepan Nercessian.
Distribuição: Paris Filmes.
Trailer:



