Aquela crença de que Ridley Scott, egresso da publicidade, é um cineasta esteta ficou no passado. Filmes como a sua estreia em longas Os Duelistas (1977), o sci-fi noir Blade Runner (1982) e o neo-noir Chuva Negra (1989) instigaram a construção deste mito. Mas, sua carreira cresceu tanto que o limitou a grandes produções, obrigando-o a trocar o que poderia ser seu traço autoral pela eficiência. Como diretor profissional, deu certo, e por isso realiza filmes caros um atrás do outro.
À primeira vista, Ponto Sem Retorno, uma produção da 20th Century Studios (Disney), parece ser um filme menos custoso. Porém, conta com elenco de primeiro escalão (Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Guy Pearce), várias cenas de ação, cenários pós-apocalípticos, e uma sequência com um desconcertante visual retrô.
Baseado no livro “Na Companhia das Estrelas”, de Peter Heller, o filme se passa em 2035, num mundo esvaziado por uma pandemia. Os sobreviventes que continuam sãos vivem em lugares isolados, sempre atentos a invasores, principalmente os ceifadores, que perderam a sua humanidade e andam em grupos como selvagens que nem conseguem mais falar.
A rotina pós-apocalipse
Na introdução, Ridley Scott conduz o espectador com habilidade. Ao som de uma música tranquila, acompanhamos a rotina de Hig, papel de Jacob Elordi. Junto com o seu cão Jasper, ele mora num lugar afastado no interior. Hig aciona seu avião monomotor e inicia um voo pela região. Parece que está tudo bem nessa vida serena no meio da natureza. Mas, assim que entra uma música com tons sombrios, aparece na paisagem a cidade de Denver vazia, totalmente abandonada, com a vegetação dominando as construções. Ou seja, aconteceu alguma catástrofe que dizimou a população. Sem alarde, essa informação logo aparece: foi uma gripe altamente contagiosa.
Nessas visitas à cidade, Hig se abastasse do estoque de alguns produtos e medicamentos de acordo com a necessidade. Parte deles (uma caixa de refrigerantes, o que soa estranho e parece merchandising) ele leva para uma fazenda de sobreviventes com várias crianças. O restante vai para a sua moradia, que, agora descobrimos, ele divide com Bangley, um ex-militar vivido por Josh Brolin cuja prioridade é eliminar os invasores.
Ponto Sem Retorno conta com algumas sequências de ação, nas quais os protagonistas se defendem dos bandos de selvagens nômades ou escapam de um bizarro e mal explicado grupo que encontrou uma forma sinistra (talvez canibal) de viver confortavelmente nesse caos pós-apocalíptico. São bem filmadas, com planos na posição, movimentação e duração apropriadas, com uma mistura entre efeitos especiais e computação gráfica que não incomoda. Nesse quesito, a experiência de Ridley Scott pesa positivamente.
Sequências paralelas
Mas, Scott erra ao optar pela intercalação de duas sequências paralelas que acompanham a breve jornada de Hig em busca de um lugar melhor para viver e a resistência solitária de Bangley contra invasores cada vez mais numerosos. Há um desequilíbrio grande entre o que acontece entre os dois. Hig se envolve com a jovem Cima e seu pai, personagens de Margaret Qualley e Guy Pearce, fazendeiros que tentam levar as suas vidas, mas vulneráveis aos ceifadores. Os três terão, inclusive, que fugir do local no avião de Hig, que os leva para o sonhado oásis chamado Grand Junction, um pequeno aeroporto para aviões de pequeno porte onde dizem que os moradores conseguem viver com o conforto anterior à pandemia.
Enquanto isso, Bangley apenas defende o seu território, até ser atacado por um bando numeroso de ceifadores. A intenção das ações paralelas é levantar a dúvida se Bangley conseguiu sobreviver ao ataque. Mas, o prejuízo de quebrar o fluxo das situações mais emocionantes vividas por Hig não compensa esse instante de suspense. E, algumas intercalações ainda confundem o espectador, porque começam mostrando os invasores, e não Bangley, portanto parece que os desconhecidos estão prestes a abordar a turma de Hig.
Um filme doutrinador
O filme trabalha o tema da adaptação. Nesse caso extremo, o mundo mudou radicalmente, e as pessoas precisam se ajustar a esse novo ambiente hostil. Tentar voltar ao formato anterior à catástrofe pode resultar em um comportamento abominável como o da personagem de Allison Janney. Por outro lado, desistir de tudo leva à desumanização que transforma pessoas em seres bestiais, como acontece com os bandos de ceifadores. Já a jornada de Hig serve para lhe mostrar que não adianta ir atrás de ilusões.
A conclusão, e a própria existência tranquila da fazenda dos cristão meonitas, no entanto, parece fácil demais. Não explica por que os ceifadores nunca atacaram o local. O final não justifica essa questão, nem define se essa paz não durará muito (o que seria mais provável). O filme termina, então, com essa estranha sensação de doutrinação de que a melhor solução é uma vida simples, com valores cristãos e próximas a Deus.
Ponto Sem Retorno possui boas cenas de ação, um romance morno, direção irregular e um tema enfraquecido pelo tom doutrinador.
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Ficha técnica:
Ponto Sem Retorno | The Dog Stars | 2026 | 118 min. | Estados Unidos | Direção: Ridley Scott | Roteiro: Mark L. Smith (baseado no livro “Na Companhia das Estrelas”, de Peter Heller) | Elenco: Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Guy Pearce, Benedict Wong, Allison Janney.
Distribuição: 20th Century Studios.



