Gus Van Sant impressionou o público ao adaptar uma tragédia real para as telas em Elefante (2003), seu filme sobre o massacre na Columbine High School em 1999. Desta vez, em Refém Por Um Fio, o diretor americano se inspira no sequestro ocorrido em 8 de fevereiro de 1977 em Indianápolis.
Bill Skarsgård interpreta Tony Kiritsis, um incorporador imobiliário que acredita que foi enganado pela empresa de crédito Meridian Mortgage Company e decide sequestrar o seu dono para recuperar os 5 milhões de dólares que perdeu. Mas, o dono, vivido por Al Pacino, está fora numa viagem de férias. Então, Tony sequestra seu filho, Richard Hall (papel de Dacre Montgomery).
O aparato que Tony preparou para essa ousada empreitada impressiona. O título original “dead man’s wire” é o nome de um dispositivo que conecta um fio que vai do pescoço da vítima ao gatilho de uma escopeta. Portanto, se o sequestrado se movimentar demais, a arma dispara. Além disso, depois de um inusitado trajeto do escritório da empresa até a casa de Tony, facilitada porque este conhecia pessoalmente os policiais, surpreende o fato de o sequestrador ter preparado várias armadilhas em seu apartamento. Por exemplo, se alguém arrombasse a porta, uma bomba explodiria.
A violência em rede nacional nos anos 1970
Refém Por Um Fio reforça dois sintomas marcantes do cenário pós-Vietnã e pós-Watergate nos anos 1977. Eram tempos de violência, uma herança da tradição do Velho Oeste, como indica a cena em que Tony imita os gestos dos pistoleiros em um faroeste que passa na televisão. E o cinema mostrara no filme Rede de Intrigas (Network, 1976), de Sidney Lumet, que a violência podia acontecer ao vivo em rede nacional. Não bastava, portanto, a profusão de imagens gravadas das guerras da época, a televisão queria aumentar a audiência com registros ao vivo.
Essa é a obsessão da personagem de Myha’la, que faz a oportunista repórter Linda Page. Desde o início do conflito, ela insiste em transmitir ao vivo o que está acontecendo. Desde que ela começa a fazer isso, alguns trechos curtos no filme adotam características de vídeos jornalísticos. Gus Van Sant não descarta, também, as outras mídias. Por isso, na saída do prédio da empresa, o diretor congela as imagens para representar fotografias tiradas pela imprensa. Além disso, por exigência do sequestrador, o DJ Fred Temple (vivido por Colman Domingo), acompanha o caso e transmite alguns comentários sobre isso em seu programa no rádio.
A atuação de Temple provoca uma reação positiva por parte da população, que passa a apoiar a ação de Tony Kiritsis. O sequestrador, então, ganha o status de um rebelde que luta contra o sistema de exploração financeira. Transforma-se num fora-da-lei heroico, como o casal Bonnie e Clyde (1967) no filme de Arthur Penn. Ou, num viés mais romântico, um protagonista de Frank Capra.
Porém, Gus Van Sant não distorce os fatos para criar um final empolgante. A conclusão, assim, nem é trágica nem edificante. Tony Kiritsis deu seu recado, mas foi incapaz de mudar os destinos de sua vida, muito menos do sistema.
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Ficha técnica:
Refém Por Um Fio | Dead Man’s Wire | 2025 | 104 min. | Estados Unidos | Direção: Gus Van Sant | Roteiro: Austin Kolodney | Elenco: Bill Skarsgård, Dacre Montgomery, Al Pacino, Colman Domingo, Cary Elwes, Myha’la.
Distribuição: Pandora Filmes.
Trailer:
https://youtu.be/SDfzD35qfsY?si=BGefeXxiYHPiS3Kl



