Sindicato de Ladrões possui uma relevância emblemática para a carreira de Elia Kazan. Em 1952, o diretor depôs ao Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara (HUAC), na caça aos comunistas promovida pelo senador Joseph McCarthy. Na ocasião, delatou oito colegas de seus tempos de teatro. Como consequência, sofreu forte rejeição dos seus amigos, e a classe artística da indústria cinematográfica jamais o perdoou, como provou o protesto silencioso de boa parte da plateia da cerimônia do Oscar de 1999, quando Kazan recebeu um prêmio pelo conjunto de sua obra.
Neste filme, lançado em 1954, Kazan apresenta a sua justificativa para a delação. Na trama, Terry Malloy, interpretado por Marlon Brando, e seu irmão Charley (Rod Steiger) fazem parte de um sindicato mafioso liderado por Johnny Friendly (Lee J. Cobb). Sem saber, Terry se envolve no assassinato de um rapaz considerado delator pela máfia. A morte o faz reencontrar com Edie Doyle (Eva Marie Saint), a irmã da vítima e uma antiga colega do bairro de Terry que saiu desse lugar perigoso para estudar numa escola cristã. Eventos subsequentes ao crime o aproximam também do padre Barry (Karl Malden), um corajoso defensor do amor ao próximo nesse ambiente dominado pela violência e pela corrupção.
Terry e Rocky
Terry Malloy é um ex-pugilista que chegou perto de construir uma carreira de sucesso no esporte mas, por estar envolvido com essas pessoas desonestas, precisou entregar uma luta importante e perdeu a sua grande chance. Esse personagem simplório, não muito inteligente, se parece com outro pugilista azarão: o Rocky Balboa, do filme de 1976 dirigido por John G. Avildsen e escrito e protagonizado por Sylvester Stallone.
No início dos seus respectivos filmes, Terry e Rocky executam funções de pouca importância para grupos mafiosos. Terry é o chamariz que atrai um delator para uma cilada, enquanto Rocky cobra dívidas. Os dois seguiriam essa sina pelo resto de suas vidas, se não fosse pela influência positiva de duas pessoas: o interesse amoroso e o mentor. Se Rocky encontra seu refúgio de paz na tímida Adrian, Terry descobre a bondade em Edie. Como mentor, Rocky conta com seu treinador veterano Mickey, e o personagem de Marlon Brando com o exemplo do padre Barry.
A direção de Kazan
Elia Kazan valoriza os personagens que mudam a vida de Terry. Destaco dois momentos especiais. Num deles, o padre discursa com bravura depois de dar os últimos ritos para mais uma vítima do sindicado criminoso que controla o trabalho nas docas. Ao final, diante dos chefões da máfia, um guindaste sobe o padre sobre a mercadoria do piso da carga onde ele se encontra até o convés principal, simbolizando a sua elevada grandeza como ser humano. No outro destaque, Terry toma coragem para contar a Edie sobre o seu envolvimento no assassinato do irmão dela. O diretor Kazan sabe que o espectador não precisa ouvir o que ele diz, e filma essa cena dramática de longe, de onde não se ouve as vozes dos personagens. No lugar do diálogo, ele insere o ensurdecedor apito de um navio.
Outro personagem essencial para a trama é Charley, o irmão de Terry, que envolve o caçula no sindicato para ajudá-lo a ganhar dinheiro. Porém, quando o rapaz ganha consciência e se transforma num potencial delator, o chefão da máfia obriga Charley a trair o próprio irmão. A conversa entre os dois no banco traseiro de um carro é uma das cenas mais famosas do cinema. Nesse trecho, Terry descobre com tristeza as intenções do seu primogênito.
Além dessas cenas acima, há outra que revela ousadia por parte de Kazan. Ao fim da audiência, o resultado chega ao escalão acima de Johnny Friendly, que é apenas o chefão do sindicato dos portuários. Kazan denuncia a corrupção nas esferas superiores, supostamente envolvendo o prefeito.
O apelo de Kazan e as vitórias no Oscar
Por fim, na conclusão, Elia Kazan endereça a sua questão pessoal em relação a delações. Ao invés de Terry ser exaltado pelos seus colegas como um herói por ter deposto contra o sindicato corrupto, seus amigos o rejeitam e fica evidente que ele nunca mais conseguirá trabalhar ali. Duramente espancado pelos mafiosos, o padre Barry usa o seu sofrimento para transformá-lo num mártir. O apelo funciona, e muda a perspectiva dos trabalhadores.
Como a cerimônia do Oscar de 1999 mostrou, a mensagem de Elia Kazan não surtiu o efeito que desejava. Por outro lado, Sindicato de Ladrões conquistou oito estatuetas na 27ª edição do Oscar. O longa garantiu o prêmio máximo da noite como Melhor Filme, além de consagrar Elia Kazan na categoria de Melhor Diretor e render o primeiro Oscar da carreira de Marlon Brando como Melhor Ator. A estreia marcante de Eva Marie Saint também foi coroada com a vitória de Melhor Atriz Coadjuvante, enquanto o roteiro afiado de Budd Schulberg levou o prêmio de Melhor História e Roteiro Original.
O apuro técnico da produção completou a noite vitoriosa com as estatuetas de Melhor Fotografia em Preto e Branco para Boris Kaufman, Melhor Direção de Arte em Preto e Branco para Richard Day e Melhor Montagem para Gene Milford. Além disso, ainda foi indicado para Melhor Trilha Musical, composta por Leonard Bernstein, e três indicações na mesma categoria (Melhor Ator Coadjuvante) para os atores Lee J. Cobb, Karl Malden e Rod Steiger.
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Ficha técnica:
Sindicato de Ladrões | On the Waterfront | 1954 | 108 | Estados Unidos | Direção: Elia Kazan | Roteiro: Budd Schulberg | Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger, Eva Marie Saint, Pat Henning, Leif Erickson, James Westerfield, Martin Balsam.
Distribuição: Columbia Pictures.








