Socorro! (Send Help) marca o retorno de Sam Raimi e de Rachel McAdams ao cinema, após uma breve ausência. O filme anterior que Raimi dirigiu foi Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), que contou com McAdams no elenco, mas a atriz depois esteve em Crescendo Juntas (Are You There God? It’s Me, Margaret.), de 2023. O novo trabalho os coloca em uma situação que vai contra a imagem deles. O diretor é conhecido no gênero terror e fantasia, e desta vez faz uma comédia satírica. Já atriz ficou famosa em papéis que exaltavam a sua aparência, e agora sua personagem é uma pessoa sem atrativos físicos e muito acanhada – ou seja, uma contadora, como Hollywood gosta de estigmatizar esta profissão.
A trama
Rachel McAdams pode provar a sua versatilidade nesse papel de pessoa comum e espontaneamente emotiva que tem a cara da Sandra Bullock. Ela interpreta Linda Liddle, uma excelente gerente de planejamento que se decepciona ao ver a promessa de ser promovida a vice-presidente da empresa ir ralo abaixo com a morte do dono e a substituição pelo filho dele, o folgadão Bradley Preston (Dylan O’Brien).
Numa viagem a negócios, o jato particular que carrega Bradley, Linda e outros executivos da empresa sofre um acidente aéreo. Os únicos sobreviventes são Bradley e Linda, que acabam numa ilha isolada. Viciada no reality show “Survivor”, Linda conhece todos os segredos para sobreviver nessa situação. Portanto, agora o jogo virou: é ela quem dá as cartas. Mas, conforme o enredo avança, o filme prova que o poder corrompe.
A direção
Fora do seu lugar de conforto, Sam Raimi surpreende com uma direção magistral. O enredo poderia gerar uma comédia bobinha, com o humor fácil predominando todo o tempo e intercalado com surpresas violentas, uma fórmula vastamente utilizada no cinema contemporâneo. Porém, nas mãos deste cineasta talentoso, o resultado é um filme que varia tons em blocos narrativos e provoca risos com uma sátira mordaz. E a violência surge como uma assinatura autoral em meio a cenas de pesadelo e de ação muito bem dirigidas.
A primeira parte do filme apresenta a protagonista Linda. Com pouco uso de música de fundo, o retrato soa depressivo. A falta de tato social da personagem no escritório e sua solidão ao conversar com seu pássaro de estimação se afastam da caricatura burlesca. O ritmo lento, propositalmente desinteressante, aproxima Linda do público, produzindo uma empatia crucial para a iminente virada da trama no terceiro ato.
Pois esse diretor que constrói tão bem esse personagem dramático é capaz também de filmar a emocionante cena do desastre aéreo, repleta de detalhes impactantes que são essenciais para a história e para a caracterização dos protagonistas. Raimi retoma suas especialidades nas cenas de ação com toques de gore, como na caça ao javali e no sonho de Linda. E se inspira no cinema clássico para os trechos à beira do penhasco. Para o momento mais cômico, quando Bradley tenta provar que pode se virar sozinho e construir seu próprio acampamento, a trilha musical de Danny Elfman antecipa o tom, que não entra no humor tolo, mas ainda assim provoca risadas.
Uma sátira cortante
No entanto, a trama se estica além da conta. A discussão após a situação da lancha não empolga e o confronto final na casa deixa a impressão de que o roteiro vai longe demais. A cena, pelo menos, se encerra com uma transição esperta que conduz para a conclusão amoral, como era de se esperar.
Sam Raimi e Rachel McAdams expandem seus talentos e fazem de Socorro! uma sátira inapelável sobre a depravação do poder.
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Ficha técnica:
Socorro! | Send Help | 2026 | 113 min. | EUA | Direção: Sam Raimi | Roteiro: Mark Swift, Damian Shannon | Elenco: Rachel McAdams, Dylan O’Brien, Edyll Ismail, Xavier Samuel, Chris Pang, Kristy Best, Bruce Campbell, Emma Raimi.
Distribuição: 20th Century Studios.
Trailer:



