Em 1963, ano em que O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat) foi finalmente liberado pela censura e exibido nos cinemas, Jean-Luc Godard estreou um novo filme político, Tempo de Guerra (Les Carabiniers).
Em tom de sátira, Tempo de Guerra mostra um exército explorando dois irmãos que vivem em condições miseráveis com suas respectivas esposas. A história se passa em local e época indefinidos, mas a trama fictícia parece acontecer durante a Primeira Guerra Mundial.
Os irmãos Michelangelo e Ulisses moram com suas mulheres Vênus e Cleópatra em um barraco bem pobre. Dois soldados chegam num jipe e informam que o rei está convocando os irmãos para a guerra. Ignorantes, os dois acreditam na conversa dos militares que dizem que na guerra eles poderão pegar o que quiserem dos inimigos, e voltarão ricos. Assim, partem para os territórios em conflito, onde cometem várias atrocidades contra civis.
A narrativa é conduzida através das cartas que eles escrevem para as esposas. Cartas muito bem escritas, portanto, inconsistentes com o nível de instrução dos protagonistas. Essa inconsistência faz parte do humor cínico de Godard. No contexto das correspondências, uma visão totalmente distorcida da realidade da guerra.
Cinema mudo
A caracterização infantilizada dos irmãos resgata a comédia do cinema mudo. Em uma cena bem representativa, Michelangelo vai a um cinema e pensa que o filme projetado na tela grande é real. Além de reproduzir a experiência do público que se assustou com o trem vindo na direção da câmera numa exibição dos Lumière, essa sequência ainda mostra Michelangelo todo animado para ver a nudez da mulher numa banheira num dos trechos exibidos. Reforçando a homenagem, logo em seguida entra um trecho onde um casal alimenta um bebê, outra película famosa dos pioneiros cineastas franceses.
Os atos violentos dos irmãos a serviço do exército do rei também ganham um tom de humor sombrio. Godard critica a aliciação de pessoas simplórias pela propaganda mentirosa dos governos. Ao mesmo tempo, ataca o problema da educação falha que coloca as pessoas suscetíveis a esse tipo de abordagem. No filme, os irmãos e suas esposas são facilmente seduzidos pela promessa de riquezas.
O diretor ataca, também, o materialismo. Os protagonistas matam e roubam pensando em usar a guerra para enriquecerem. A longa cena com uma sucessão de cartões-postais revela a obsessão tola por bens.
Tempo de Guerra expõe a consciência política de Godard, que se intensificaria a partir dos anos 1970. Neste filme, ainda prevalece o espírito rebelde da Nouvelle Vaugue, e a intenção de trabalhar com os filmes de gênero – como já fizera antes com o policial (Acossado), a comédia romântica (Uma Mulher é uma Mulher) e o melodrama (Viver a Vida).
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Ficha técnica:
Tempo de Guerra | Les Carabiniers | 1963 | 75 min. | França, Itália | Direção: Jean-Luc Godard | Roteiro: Jean-Luc Godard, Jean Gruault e Roberto Rossellini | Elenco: Marino Masé, Albert Juross, Geneviève Galéa, Catherine Ribeiro, Barbet Schroeder.



