O documentário Zico, o Samurai de Quintino celebra um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, destacando-o dos demais craques da bola por sua conduta profissional irrepreensível. Essa faceta responde, ao longo do filme, à pergunta que encerra o prólogo que se passa em 1991, em Kashima, no Japão: por que o consagrado Zico aceitou jogar no time da empresa Sumitomo Metals, da segunda divisão de futebol, esporte ainda amador no país? O astro, cujos valores éticos (profissionalismo, respeito aos outros, pontualidade, compromisso, determinação, coragem e outros elencados no longa) coincidem com a cultura japonesa, encontrou a combinação perfeita para conquistar mais do que as vitórias dentro do campo.
Apesar desse início cronologicamente invertido, o documentário dirigido por João Wainer (que filma também ficção – como A Jaula [2022] e Bandida: A Número Um [2024]), em sua maior parte, segue a linha do tempo. Começa, assim, com a infância de Arthur Antunes Coimbra no bairro Quintino Bocaiúva, na zona norte do Rio de Janeiro. Quando menino era franzino, mas habilidoso no futebol, por isso o Arthurzico ganhou o apelido de Galinho de Quintino, cuja variação acrescentando suas realizações no Japão resulta no título desta obra.
O pai exigiu, e providenciou as condições, para que seus cinco filhos estudassem. Zico chegou a cursar o ensino superior em Educação Física, mas interrompeu os estudos quando foi transferido para o clube italiano Udinese. Segundo o próprio atleta, as suas qualidades como pessoa íntegra são herança dessa educação familiar.
Manter a narrativa em ordem cronológica faz bem para o filme, pois aquele início no Japão, que antecipa o que está por vir, confunde um pouco porque omite que Zico tinha se aposentado oficialmente como jogador em 6 de fevereiro de 1990. Se toda a narrativa insistisse nessa condução, a compreensão talvez ficasse prejudicada.
O livro aberto de Zico
Um dos pontos fortes do registro é a confiança que Zico deposita na produção. Ele cede muitos vídeos caseiros da sua vida pessoal, da esposa e dos filhos, e chama os familiares para prestarem depoimentos. Ele próprio participa ativamente das filmagens, comentando sobre suas experiências. A demonstração de sua confiança fica evidente num jogo de botão contra o jornalista Mauro Betting ao vibrar espontaneamente quando faz um gol no time do adversário.
Zico, o Samurai de Quintino passa pelas conquistas e pelas derrotas do ídolo do Flamengo e do Brasil. Campeão do mundo interclubes, mas nunca da Copa do Mundo; eleito melhor jogador do mundo (1983), com incontáveis Bolas de Ouro (prêmio da revista Placar); Zico é, acima de tudo, único no quesito comportamento. Como exemplo de sua conduta, Zico comenta como sendo ruim o fato de o então técnico do Flamengo Paulo César Carpegiani ter colocado o centroavante reserva Anselmo em campo na final da Libertadores para agredir um jogador do adversário Cobreloa. Para Zico, adversário não é inimigo. Pelo contrário, ele mostra que fez muitos amigos de outros times, citando Roberto Dinamite, do Vasco.
O espírito de Zico
Por suas atitudes, Zico foi chamado de majime (真面目) no Japão (que significa sério, honesto, trabalhador). O filme de João Wainer chega num momento em que a maioria dos jogadores brasileiros ainda não entenderam essa mentalidade. E o exemplo de Zico reforça essa mudança que alguns atletas jovens já estão aprendendo, sob a orientação de técnicos estrangeiros aqui ou fora do Brasil. Em família, o Arthur Antunes Coimbra faz a sua parte, como mostra o filme no trecho em que ele responde à neta que se vangloria por ter dado três canetas na adversária, afirmando que ele preferia fazer gols (e não firulas, como muitos jogadores que querem mais aparecer do que ajudar o time).
Talvez para soar atual, a conclusão traz imagens do Flamengo conquistando a Taça Libertadores de 2025. Soa como um aceno apelativo para a imensa torcida rubro-negra, pois não tem uma ligação direta com Zico. É um trecho dispensável, que desvia a atenção do que o documentário tem de mais importante, que é o exemplo deste jogador diferenciado.
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Ficha técnica:
Zico, o Samurai de Quintino | 2026 | 107 min. | Direção: João Wainer | Roteiro: Thiago Iacocca.
Distribuição: Downtown Filmes.



