Dirigido por Dennis Gansel, A Onda (Die Welle) adapta o livro homônimo lançado em 1981 por Morton Rhue — pseudônimo de Todd Strasser, autor prolífico conhecido também por assinar a novelização oficial do clássico pop Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986). A obra literária ficcionaliza o experimento social verídico The Third Wave, conduzido na Cubberley High School (Califórnia) em 1967, onde um professor de história demonstrou na prática como a engrenagem do fascismo e do nazismo conseguiu cooptar a mente da sociedade alemã. Vale lembrar que a mesma premissa gerou a série Nós Somos a Onda (2019), produzida pela Netflix.
O experimento real e a autocracia em sala de aula
Na trama do longa, o professor Rainer Wenger é escalado contra a sua vontade para ministrar uma semana de aulas extracurriculares sobre autocracia, quando seu desejo inicial era debater a anarquia. Para sacudir a apatia de seus estudantes, ele decide criar um laboratório prático de submissão e poder. Ao longo de cinco dias letivos, Wenger introduz conceitos progressivos: disciplina, comunidade, ação e orgulho nacional.
O que começa como uma dinâmica pedagógica rapidamente foge do controle. Alunos dissidentes são sumariamente expulsos do grupo. O corpo estudantil adota um uniforme padronizado, cria uma logo institucional e desenvolve uma saudação própria — cuja semelhança com os gestos totalitários do século XX é cegamente ignorada por eles. Em ritmo alarmante, a comunidade se fecha em uma seita exclusivista. Batizado de A Onda, o movimento passa a demarcar território pela cidade por meio de pichações e adesivos, atraindo novos membros a se integrarem ao grupo.
Problemas narrativos e a força do debate
Se o tema é academicamente fascinante, Dennis Gansel falha em sua tradução puramente cinematográfica. O diretor parece tão obcecado pela mensagem política que negligencia o rigor estético da direção. O primeiro ato sofre com uma montagem caótica, saltando de núcleo em núcleo sem conceder o tempo necessário para o espectador criar vínculos com os estudantes. Nem mesmo o professor Wenger recebe o estofo dramático necessário; suas motivações psicológicas para esticar o experimento até o limite — ignorando os avisos lúcidos de sua esposa, que leciona na mesma instituição — permanecem obscuras.
O elenco jovem sofre com o tratamento superficial do roteiro. Destacam-se apenas o casal Marco e Karo — sendo ela a única voz dissidente a enxergar o perigo daquela lavagem cerebral coletiva. E Tim, o estudante mais vulnerável, negligenciado pelos pais e que, armado, quer assumir a função de guarda-costas do professor. A instabilidade emocional de Tim conduz a narrativa ao seu clímax trágico. Embora esse desfecho dramático conste no livro de Strasser, ele não ocorreu na realidade de 1967, operando puramente como uma concessão comercial para emocionar o público.
Como obra de cinema, A Onda carece de refinamento técnico e profundidade de personagens. Contudo, o eco do experimento que o sustenta possui uma força inegável. Trata-se de um libelo pedagógico incômodo, cuja relevância se renova em períodos de crise social, quando soluções extremistas e simplistas começam a seduzir as massas.
___________________________________________
Ficha técnica:
A Onda | Die Welle | 2008 | 107 min. | Alemanha | Direção: Dennis Gansel | Roteiro: Dennis Gansel, Peter Thorwarth | Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Elyas M’Barek.



