A Vida de Chuck marca mais um Mike Flanagan adaptando uma obra de Stephen King para o cinema, depois de receber elogios do autor por suas versões de Jogo Perigoso (2017) e Doutor Sono (2019). Desta vez, o diretor que fez também Ouija: Origem do Mal (2016) se desafia num gênero diferente do terror. Aliás, como o próprio King, basta lembrar de Conta Comigo (1986), de Rob Reiner, e Um Sonho de Liberdade (1994) e À Espera de um Milagre (1999), estes dois últimos dirigidos por Frank Darabont.
Não há terror, mas o fantástico impulsiona o enredo de A Vida de Chuck, quando revela na parte final o que o protagonista encontra no sótão trancado de sua casa. Essa revelação justifica a estrutura narrativa em três atos cronologicamente invertidos.
O Ato III causa um imenso impacto. Envoltos num mistério que remete ao universo M. Night Shyamalan, os protagonistas deste segmento, Marty (Chiwetel Ejiofor) e Felicia (Karen Gillian), enfrentam catástrofes naturais que acontecem em outros lugares do planeta. Em meio ao caos e desesperança diante do que parece ser o fim dos tempos, a dupla se intriga com as referências onipresentes da imagem de Chuck (Tom Hiddleston) em anúncios com sua imagem e a frase “Obrigado, Chuck”. Na melancólica conclusão deste primeiro capítulo, uma breve aparição de Chuck desvenda o mistério com um conceito muito belo sobre a vida e a morte, que os demais segmentos desenvolvem.
Um momento mágico
No Ato II, Chuck assume o protagonismo, com trinta e poucos anos. Em termos narrativos, esse capítulo desvenda, na voz de um narrador, a importante informação sobre o câncer que matará Chuck. Esse dado acrescenta uma emoção tremenda à inesperada cena da dança embalada pelo som da bateria tocada por uma jovem artista de rua (a revelação The Pocket Queen).
Diferente dos musicais clássicos, essa apresentação, beneficiada por sua longa duração e com o detalhe singular de contar apenas com um instrumento percussivo, soa incrivelmente espontânea, como se, de fato, um contador com terno e gravata começasse a acompanhar o ritmo de uma bateria bem no centro de uma cidade. A troca de olhares entre os dois artistas ilustram que eles estão improvisando o número, criando passos e ritmos conforme a inspiração de cada um, sempre em sintonia um com o outro. Além disso, tendo ainda revelado que o personagem terá a sua vida abreviada, a dança de Chuck se torna um daqueles momentos mágicos imediatamente eternizados para a história do cinema.
E como esse engomadinho sabe dançar tão bem? O capítulo final chamado Ato I, por causa da cronologia regressiva, demonstra não só como ele desenvolveu seu talento natural – primeiramente com a avó (um encantador retorno de Mia Sara às telas) e depois nas aulas de dança na escola – como também indica que tudo o que acontece na vida de uma pessoa contribui para a formação do mundo próprio de cada um, que só existe dentro da sua mente.
Multitudes
Esse conceito surge de uma interpretação livre do poema “Song of Myself”, de Walt Whitman (o poeta de “O Captain! My Captain!”, popularizado pelo filme Sociedade dos Poetas Mortos [1989]), do verso que aparece no título do Ato I, “Eu contenho multitudes”. A ideia contrapõe a racionalidade de Carl Sagan em relação à insignificância do ser humano comparado ao universo, o qual marcou Chuck, mesmo que ele não tenha dado conta disso. A lógica matemática do cientista pode ser exata, mas não contempla o fator humano. Para cada pessoa, o que importa existe no seu mundo particular, composto pela multitude de experiências que vivenciou. Então, quando essa pessoa morre, morre também o seu mundo, que é único. Assim, o primeiro capítulo do filme expressa em imagens o mundo de Chuck chegando ao seu fim.
O filme se encerra num tom menos empolgante, porque se alonga um pouco demais para incluir a revelação do mistério do porão, e sua relevância para a trama. Nestes trechos, conta com Jacob Tremblay, de Extraordinário (2017), que neste papel parece um ator menos carismático o que o talentoso Benjamin Pajak, que interpreta Chuck aos 10 anos.
A Vida de Chuck, em seu direcionamento fantástico e melodramático, desfila um conceito que, ao final, celebra a vida, não por sua brevidade, mas pela sua riqueza de experiências. A reunião de Mike Flanagan com Stephen King desta vez resulta numa obra-prima, mais próximo das duas adaptações de Frank Darabont do que as do próprio Flanagan. Um filme que deixa com vontade de voltar ao cinema para rever (principalmente pela incrível cena de dança).
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Ficha técnica:
A Vida de Chuck | The Life of Chuck | 2024 | EUA | Direção: Mike Flanagan | Roteiro: Mike Flanagan | Elenco: Tom Hiddleston, Benjamin Pajak, Jacob Tremblay, Karen Gillan, Matthew Lillard, Samantha Sloyan, Molly C. Quinn, Mark Hamill, Chiwetel Ejiofor, Violet McGraw, Mia Sara, Kate Siegel, Annalise Basso, The Pocket Queen, Rahul Kohli, Heather Langenkamp, Q’orianka Kilcher.
Distribuição: Diamond Films.



